terça-feira, 24 de março de 2026

Análise

 Eu estou com modo análise ativado , mas não de forma  fria, é clínica. É um tipo de análise que pulsa. Que dói enquanto organiza. Eu olho para os mitômicos e narcisistas que orbitam minha vida como quem disseco um fenômeno ,mas o fenômeno me atravessa.Eu vejo o padrão: a construção de narrativas onde eles são sempre o centro, o herói, o injustiçado. E, curiosamente, eu apareço ,quando apareço como distorção. Como erro. Como causa. Nunca como consequência.

E isso corta.Não é um corte limpo. Não é bisturi. É lâmina cega, repetida, insistente. Rasga mais do que abre. Demora mais do que deveria para cicatrizar. E enquanto ainda sangra, eles seguem… intactos. Ou melhor: performando intactos. Vivendo como se nada tivesse sido feito. Como se nenhuma palavra tivesse pesado. Como se nenhuma ausência tivesse sido construída.E eu fico com a tarefa invisível: entender, recompor, dar nome ao que aconteceu. Filosofar sobre a dor enquanto ainda sinto ela quente. Procurar sentido quase como quem mexe em ervas , tentando encontrar cura no que ainda arde.

O mais perverso talvez não seja o corte. É a inversão.É quando a ferida que recebo retorna para mim como acusação. Como se eu fosse a origem daquilo que me dilacera. Como se minha reação fosse o problema e não a ação que a provocou.

E aí eu penso: até onde vai minha responsabilidade? Até onde eu estou analisando para compreender e a partir de quando começo a me violentar tentando justificar o injustificável?

Essa semana estou assim: menos tolerante com ilusões. Inclusive as minhas.

Porque existe um ponto em que entender o outro deixa de ser sabedoria… e começa a ser abandono de si.

E talvez a análise mais difícil não seja sobre eles.

Seja sobre o momento exato em que eu preciso parar de olhar, parar de explicar, e simplesmente… não me deixar cortar de novo.Neide Ponzoni

domingo, 15 de março de 2026

Meu lugar secreto

 Dentro de cada pessoa existe um lugar secreto. Não é um lugar que aparece nos dias leves, nas conversas fáceis ou nos momentos de riso. Ele surge quando algo nos fere, quando uma palavra pesa demais ou quando alguém que amamos nos atravessa sem perceber. É então que, quase sem perceber, recuamos para dentro de nós mesmos.

Esse esconderijo não tem paredes visíveis, mas é forte. É um espaço silencioso onde recolhemos os pedaços que ficaram espalhados depois da dor. Ali dentro, o mundo lá fora continua fazendo barulho, mas por um instante podemos respirar. É como se a alma se sentasse em um canto, em silêncio, esperando o coração se reorganizar.

Nem sempre esse lugar é triste. Às vezes ele é apenas necessário. É ali que aprendemos a sobreviver às pequenas e grandes feridas da vida. No esconderijo interior, lembramos quem somos antes das palavras duras, antes das decepções, antes daquilo que tentou nos diminuir.

Cada pessoa constrói o seu de um jeito diferente. Alguns encontram esse refúgio nas memórias, outros nos sonhos, outros ainda no simples ato de ficar em silêncio. Mas todos nós, em algum momento, precisamos voltar para esse lugar secreto.

Porque sobreviver também é isso: saber recolher-se quando o mundo pesa demais e, depois, pouco a pouco, encontrar coragem para sair de novo.Neide  Ponzoni 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Férias

 Férias

Minhas férias não foram feitas de mapas,

nem de bilhetes carimbados ou encontros ruidosos em bares e restaurantes …

Fiquei em casa,

entre as gavetas da alma

e os armários do tempo,

tirando poeiras antigas,

dobrando lembranças,

jogando fora o que já não me serve mais .Uma cirurgia nos olhos

me afastou do mundo lá fora,

mas me aproximou de mim.

Com pouca visão,

aprendi a enxergar o essencial:

os silêncios que gritam,

as verdades que escondo,

os medos que me vestem.

Foram dez dias de caos e silêncio,

até entender a luz 

a que vem de dentro,

quando tudo escurece.

Não vi exposições,

nem os poucos amigos que tenho.

Mas me expus.

Me revi.

Me entendi.

Volto agora

para o trabalho que escolhi

e conquistei

Mais inteira.

Sabendo, 

o valor que carrego no breu e na luz ! Neide Ponzoni

Não é luta

 Não é uma luta


Não gosto da palavra luta.

Ela carrega espadas,

ela elege um vencedor

e sempre deixa um vencido.


Quando dizem

"perdeu a luta contra o câncer",

parece que o câncer venceu.

Mas quem viveu com ele

não foi fraco , foi imenso.


O câncer não é uma batalha,

é um furacão que passa por dentro.

É o corpo pedindo ajuda em silêncio,

é a ciência buscando respostas,

é a alma agarrada ao tempo.


E morrer de câncer

é um soco no estômago do mundo.

Porque a gente acredita na cura,

espera pela esperança,

faz promessas ao universo.


Mas às vezes não dá.

E não é derrota 

é travessia.

É o corpo cansado 

é a vida se transformando

em algo que não entendemos.


Quem tem câncer

carrega um surreal que não se explica.

Junto vem uma solidão estranha,

uma sensação de estar entre mundos,

sem chão, sem mapa, sem nome.


E toda vez que alguém parte assim,

fico dias em silêncio,

pensando na vida,

na morte,

nessa estrada que todos seguimos

mas evitamos olhar de frente.


Não, não é uma luta.

É um caminho duro,

é um mar revolto,

é amor até o fim.

E quem passa por isso

merece mais que um rótulo 

merece reverência. Neide Ponzoni

Filha de fé

 Assumir minha fé foi como abrir um portão antigo,de ferro batido e história esquecida.

Atrás dele, cantos que não sabia, cheiros de ervas que limpam a alma e 

 uma dança que gira o mundo no sentido certo.

Não entrei por acaso , nem por susto.

Entrei porque fui chamado e quando Exu chama,a alma reconhece o caminho antes dos pés.

Mas aqui fora…o preconceito se esconde, ofende rindo , se mascara de preocupação,de “cuidado com essas coisas”,

Ignoram que o tambor é coração batendo em terreiro,que o orixá não pede medo, mas respeito,que cada guia que me acompanha já viram mais do que mil livros poderiam contar.

Carrego no peito o axé dos meus,

e nos ombros a poeira de quem andou antes de mim.

Porque ser de religião de matriz africana

é rezar com os pés no chão e os olhos no infinito.

É falar com os mortos para viver melhor com os vivos.

Peço ao povo da encruzilhada: me fortaleça.

Firmem minha fé quando a dúvida for sombra.

Orixás da minha coroa,sejam olhos para aquilo que ainda não vejo.

Recolham os ataques escondidos em sorrisos,limpem com arruda as palavras travestidas de cuidado,

e me cubram com a força ancestral

que não se explica se sente.

Eu sou de onde o vento gira e leva embora a mentira.

Sou da força que vem do chão,

do canto que cura,

do silêncio que escuta.

Sou de fé preta, de raiz funda.

E se incomoda,

é porque ainda há muita ignorância se fazendo de luz. Neide Ponzoni

Velho .

 Vamos ficando mais calmos,

mais nossos,

mais sozinhos e tudo bem.

Não é ausência, é presença em outra forma.

É o silêncio onde antes havia risos altos,

é o cinema em uma poltrona só,

o show que agora assisto de olhos fechados,lugar escolhido sozinha 

porque a música toca mais dentro do que fora.

Vamos perdendo gente no caminho 

não por falta de amor,

mas por sermos  diferentes. Ideia distintas , 

Já não cabe todo mundo no mesmo brinde.

O vinho que antes passava de mão em mão hoje é taça única,

lembrança vaga de um amor que foi,

ou de uma amizade que, por um tempo,

foi casa.

A gente tenta manter, mas cansa.

Cansa explicar, cansa insistir.

E um dia, simplesmente, deixamos ir.

Os que ficam, ficam porque não exigem tradução.Sempre pergunto porque quanto tempo ficarão ? 

Porque ainda entendem no olhar cansado,

no silêncio confortável,

na ausência de performance.

As conversas diminuem,

mas ganham densidade.

Os encontros escasseiam,

mas são verdadeiros.

E quando bate a saudade 

daqueles tempos,

daquelas pessoas,

daquela versão de nós  não dói.

É só memória viva,

que nos visita com ternura, e parte em paz.

Porque mudamos, e que sorte a nossa

sermos seres capazes de se refazer,

de se respeitar, de seguir… Neide Ponzoni

Saúde mental

 Falar sobre saúde mental é importante , mas viver isso dentro de casa é outra realidade. Como mãe, posso dizer com dor no coração que já vivencio essa situação. Ver uma filha lutando contra a própria mente, enfrentando crises profundas e até mesmo tentando desistir da própria vida… é algo que não se deseja a ninguém.

E o que mais machuca, além da dor de ver quem você ama sofrendo, é o julgamento. Ouvir de outras pessoas que é "falta de Deus", "drama", ou que "é só pra chamar atenção" é devastador. As pessoas falam como se soubessem da minha luta. Mas não sabem.

Não sabem das noites em claro, do medo constante, das palavras que tentamos usar e das que tentamos evitar. Não sabem o que é carregar essa angústia no peito e ainda ter que sorrir por fora.

Ninguém tenta tirar a própria vida para “chamar atenção”. Quem diz isso não entende o tamanho do desespero que alguém precisa estar vivendo para chegar a esse ponto. E se alguém está “chamando atenção”, é porque precisa ser visto, ouvido, acolhido.

Como sociedade, precisamos aprender a ter responsabilidade emocional. Precisamos parar de julgar e começar a ouvir. Começar a perguntar: “como posso ajudar?” em vez de “por que está fazendo isso?”.

Eu falo como mãe, mas também como mulher que está cansada do silêncio e do preconceito. Que essa conversa chegue a mais corações, antes que seja tarde. Saúde mental é coisa séria. E amor, empatia e escuta podem salvar vidas.Neide Ponzoni

Insônia

 Foi numa noite de ventania,

e, na madrugada, veio a chuva.

Acordada, pedi ao vento

que levasse embora a tristeza 

a dor de ouvir mentiras,

a dor que se aninha quieta no peito.

Que a chuva que batia na janela

lavasse este tempo sombrio,

purificasse o que restou em mim.

Dizem que a rasteira vem de perto,

que só fere quem já teve a tua confiança 

e é verdade.

A alma sangra onde antes havia abrigo.

Amanhece, e a chuva insiste,

como se quisesse levar consigo

tudo o que ainda sinto.

O corpo dói,

mas é a alma que grita mais fundo.

Porque a mentira , essa sim 

mata a esperança devagar.Neide Ponzoni

Aftersun

 Ontem eu assisti Aftersun foi como abrir um álbum de fotografias que alguém deixou esquecido numa gaveta imagens iluminadas pelo sol, mas atravessadas por algo que não se vê à primeira vista. O filme entra devagar, com a doçura das pequenas rotinas entre pai e filha, e aos poucos revela o peso silencioso que existe por trás de cada gesto, como se a câmera filmasse também aquilo que não foi dito.

Assistindo, a gente sente uma ternura imensa e, ao mesmo tempo, uma melancolia que cresce sem pedir licença. É a dor suave de perceber que certos momentos bonitos só se entendem muitos anos depois; que a memória às vezes nos protege, às vezes nos fere, e quase sempre nos devolve a pergunta: o que realmente aconteceu?

No fim, fica um aperto no peito não violento, mas daqueles que acompanham a lembrança de um amor frágil, incompleto, humano. Aftersun deixa a sensação de que estivemos diante de algo profundamente íntimo, uma despedida disfarçada de férias, um retrato de duas pessoas tentando se alcançar, mesmo quando alguma distância invisível as separa.

É um filme que não termina quando acaba. Ele continua dentro da gente, como uma luz que pulsa no escuro, lembrando que crescer também é tentar compreender aqueles que amamos tarde demais, cedo demais, do único jeito que podemos.

A cena da pista de dança em Aftersun é, talvez, o coração emocional do filme o momento em que tudo o que estava apenas sugerido finalmente se revela, não por palavras, mas por gestos, luz e música.

Ali, Sophie adulta tenta alcançar o pai que ela lembra, como se aquela pista fosse um espaço entre mundos: passado e presente, memória e verdade, amor e ausência. A música — pulsante, quase hipnótica — cria um contraste violento entre o que vemos e o que sentimos. É uma canção de festa, mas a atmosfera é de implosão emocional.

Calum dança sozinho, como se estivesse preso dentro de si, tentando manter uma energia que o corpo não sustenta mais. A luz estroboscópica congela pequenos fragmentos dele, como flashes de uma lembrança que Sophie tenta segurar, mas que sempre escapa. Cada estalo de luz é um pedaço de quem ele foi, um pedaço de quem ela tenta entender.

Sophie adulta entra na cena como se estivesse buscando o pai na multidão, tentando tocá-lo através das décadas, mas ele parece sempre distante não por falta de amor, mas por algo que ela nunca conseguiu ver totalmente quando criança.

É uma cena que explode aquilo que o filme inteiro sussurra: a impossibilidade de realmente compreender alguém que amamos, mesmo quando tentamos com todas as forças. O abraço que não chega. O grito que não sai. O encontro que nunca se completa.

No fim, a pista de dança se torna um espaço simbólico: o lugar onde a Sophie adulta finalmente encara o vazio deixado por esse pai, e onde o pai, na lembrança dela, parece desaparecer pela última vez não como rejeição, mas como despedida.Neide Ponzoni 

😢chorei muito .

Já não cabe tudo mundo no mesmo brinde

 Vamos ficando mais calmos, mais nossos, mais sozinhos e tudo bem.

Não é ausência, é presença em outra forma.

É o silêncio onde antes havia risos altos,

é o cinema em uma poltrona só,

o show que agora assisto de olhos fechados,lugar escolhido sozinha 

porque a música toca mais dentro do que fora.

Vamos perdendo gente no caminho 

não por falta de amor,mas por sermos  diferentes. Ideia distintas , 

Já não cabe todo mundo no mesmo brinde.

O vinho que antes passava de mão em mão hoje é taça única,

lembrança vaga de um amor que foi,

ou de uma amizade que, por um tempo,

foi casa.A gente tenta manter, mas cansa.

Cansa explicar, cansa insistir.

E um dia, simplesmente, deixamos ir.

Os que ficam, ficam porque não exigem tradução.Sempre pergunto porque quanto tempo ficarão ? Porque ainda entendem no olhar cansado,no silêncio confortável,

na ausência de performance.

As conversas diminuem,mas ganham densidade.

Os encontros escasseiam,mas são verdadeiros.

E quando bate a saudade daqueles tempos, daquelas pessoas,

daquela versão de nós  não dói.

É só memória viva,

que nos visita com ternura, e parte em paz.

Porque mudamos, e que sorte a nossa

sermos seres capazes de se refazer,

de se respeitar, de seguir… bjos meus . Neide Ponzoni

Morte

 A MORTE


(minha única preocupação sempre foi a prudência… e mesmo assim não adiantou)

Nunca gostei de ir ao mercado.

Sempre foi cheio demais, barulhento demais, gente demais.

E além disso… eu sempre fui do tipo prudente. Minha única preocupação na vida sempre foi prudência evitar riscos, confusões, acidentes.

Mas naquele dia, mesmo com aquele peso estranho no corpo, eu fui.

Quando estendi a mão para pegar a água de coco, uma voz masculina surgiu às minhas costas, baixa e muito perto:

— Estranho comprar água de coco… quando tem coco natural logo ali.

Virei devagar.

Um homem alto, me observava como se já me conhecesse.

— É mais fácil. Não preciso quebrar — respondi, sem entender por que estava explicando algo tão banal a um estranho.

Segui para o corredor do sabão.

Mal toquei o sabão líquido, ele apareceu ao meu lado de novo.

— Por que não leva o em pó? Dura mais — disse, sem me olhar nos olhos, apenas encarando o produto na minha mão.

— Porque eu gosto do líquido — respondi, seca.

Ele inclinou a cabeça, como se analisasse minha resposta.

A essa altura, meu coração já batia errado.

Fui para as laranjas Bahia. Ele chegou tão perto que pude ouvir sua respiração.

— Essas sempre te dão azia — murmurou.

Meu estômago gelou.

— Você está me seguindo? — perguntei.

Ele sorriu, um sorriso pequeno demais, quase um reflexo.Não esqueça tudo sem lactose …. 

Não respondi 

Me afastei rápido, peguei o carrinho e fui direto ao caixa. A moça não levantou o rosto. Passou minhas compras como se estivesse sozinha no mundo. Nem quando falei “boa tarde” ela reagiu.

Peguei a sacola e saí, sentindo meu braço latejar.

E lá estava ele de novo, plantado na saída.

— Quer ajuda? perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Balancei a cabeça e apressei o passo.

Ele veio atrás.

— Moro ali também — comentou, casual.

Meu estômago virou. Ferrou.

Quase passamos juntos pela catraca do condomínio. Minha biometria falhou nunca falhava.

A dele passou na hora.

O segurança não respondeu meu “boa noite”.

Tive a sensação de que ninguém me via.

Subi mancando, cada passo doendo.

O homem apareceu no corredor, pegou minha sacola sem pedir.

— Eu carrego — disse apenas.

Algo em mim ficou paralisado. Não consegui reagir. Minha perna queimava. Meu nariz sangrou.

Entrei em casa. Meu cachorro, veio correndo… mas ao chegar perto, ele parou, olhou para mim, e deitou no chão como se estivesse triste. Não pulou, não pediu carinho.

Aquilo me deu um arrepio.

Meu marido chegou pouco depois.

— Tô passando mal — sussurrei.

— Uhum — murmurou ele, distraído, como se eu estivesse no outro cômodo. Pegou algo no quarto e saiu sem olhar pra mim.

A dor subiu para minha cabeça. Comecei a ficar tonta. Peguei a bolsa: precisava ir pra UPA.

Quando abri a porta, o homem estava lá. Como se nunca tivesse ido embora.

— Vai sair agora? — perguntou, como quem pergunta as horas.

Explodi:

— Por que você está me perseguindo? Você me conhece? O que você quer? Isso é o quê? Se você não parar, eu vou chamar alguém!

Ele levantou as mãos devagar.

— Calma. Está tudo bem. Eu só estou indo para a portaria.

Mas a voz dele não parecia tentar me acalmar… parecia me preparar.

Desci.

Na catraca, ele novamente, parado, me observando passar.

Fui até a portaria. O guarda estava agitado, nervoso, sem me olhar. Também não respondeu meu “boa noite”.

A avenida estava tomada de ambulâncias e bombeiros. Luzes piscando, gritos, correria.

Acidente, pensei. Grande.

Cheguei perto para atravessar e vi meu marido , meu filho  mudo e minha filha friaca “ ela era pudente “‘.,Ajoelhados no chão entre os bombeiros que falavam rápido com alguém.

Olhei para o lado.

E ali estava eu.

Meu corpo.

Quebrado

Ensanguentado.

Imóvel.

Meu coração parou dentro de mim o que quer que estivesse ali.

Por isso a caixa não me viu.

Por isso o porteiro não respondeu.

Por isso meu marido não ouviu minha voz.

Por isso…

Eu morri.

Um motoqueiro chorava de joelhos.

Meu nariz voltou a sangrar mas agora eu sabia: não era sangue. Era o fim.

O homem apareceu ao meu lado, silencioso.

— Agora entende — disse ele, olhando para o acidente. — Venha comigo … 

— Quem… quem é você? — minha voz mal saía.

Ele estendeu a mão.

Quando tocou a minha, seu rosto mudou — como se a pele se desfizesse, mostrando apenas sombra, calmaria e inevitável destino.

Tudo apagou.Neide Ponzoni

Esquecimento …

 Sempre tive um defeito , hoje refletindo parece mais um jeito muito particular de funcionamento emocional e de memória, que inclusive é comum em algumas pessoas com perfil mais analítico, reflexivo ou de alta intensidade cognitiva. 

Vou explicar de forma simples e sincera:

Não sinto saudade de forma espontânea

Isso não é incomum. Algumas pessoas têm um funcionamento emocional reativo, não proativo.

Ou seja:

A emoção não surge sozinha

Ela surge quando algo ativa a memória: uma mensagem, um cheiro, um comentário, uma foto . A emoção está lá, só não aparece sem gatilho.

Isso é diferente de “não sentir”. Cérebros muitas ativos  podem influenciar, sim. 

Memória que liga as coisas só quando há estímulo externo

Muitos pensamento e emoções no momento , 

Regulação emocional racionalizada (“eu lembro, mas não fico ruminando”)

Sentimentos profundos, mas que precisam de chaves para abrir

Então, sim: isso é compatível com alguns padrões cognitivos . 

A sensação de “se não me procuram, parece que não existiram”

Isso é muito interessante e tem nome: memória dependente de contexto e relação.

Não é falta de afeto.

É como se a mente funcionasse assim:

A pessoa existe quando a relação existe no momento.Se não há contato, o cérebro arquiva.Quando surge uma mensagem, tudo “desarquiva” com força (cheiro, voz, emoções, lembranças).

Isso mostra sensibilidade, não frieza. Eu só sinto diferente

“me emociono às vezes”

“sinto cheiro, ouço a voz”

“faço conexões”

Isso é profundidade emocional.

A diferença é que não dói quando está longe, porque meu cérebro não fica rodando em loop lembranças antigas. Ele está no “agora”.

As vezes não sou compreendida .

Minha mente funciona por ativação, é natural precisar de ouvir , ver , ter a mensagem, do “ei, lembrei de você”.

Não tem nada de errado nisso. É só o meu jeito.

Por isso talvez a morte para mim seja trabalhada de forma tão pacífica ..,. Só pensando .Neide Ponzoni 

Datas comemorativas

 Datas festivas, como o Natal e as celebrações de fim de ano, costumam carregar uma promessa de união, alegria e harmonia. No entanto, pela lente da psicanálise, é possível perceber que esse ideal muitas vezes funciona mais como um mandato social do que como uma experiência genuína. Espera-se que todos estejam disponíveis emocionalmente, afetuosos e gratos mesmo ainda que os vínculos ali presentes sejam frágeis, ambivalentes ou até dolorosos.

Freud já apontava que a vida em sociedade exige renúncias pulsionais. Nessas datas, essa exigência se intensifica: somos convidados a vestir máscaras de “bons anfitriões” ou “boas visitas”, reprimindo desconfortos, silenciando conflitos e encenando afetos. Esse esforço psíquico pode gerar cansaço e ansiedade, pois o sujeito se afasta do que sente para sustentar uma imagem idealizada de convivência. O que deveria ser encontro torna-se performance.

Do ponto de vista psicanalítico, o isolamento consciente quando escolhido e não imposto pode ser uma forma legítima de cuidado psíquico. Retirar-se não significa rejeitar o outro, mas reconhecer limites internos. Em vez de repetir rituais vazios, algumas pessoas encontram mais verdade em preservar o próprio espaço emocional, respeitando o que conseguem ou não sustentar naquele momento.

Talvez o desafio dessas datas não seja “sentir o que se espera”, mas permitir-se uma relação mais honesta com o próprio desejo. Um fim de ano saudável não precisa ser barulhento nem perfeitamente feliz; pode ser silencioso, simples e verdadeiro. E, do ponto de vista do inconsciente, isso já é muito.Eu opto pela solitude .Neide Ponzoni 

Passado bom

 Vi uma foto  que me levou a boas lembranças de 2015. Meus filhos descobriam o mundo. Não imaginava os desafios que surgiriam a partir das relações que eles construiriam ao longo do caminho. Naquele dia eu sorria: já havia vencido dois cânceres, sem saber que outro ainda me transformaria profundamente, levando meus seios e exigindo de mim uma força que eu nem sabia que existia.

Guardo com carinho a memória daquele momento, cercada de amigos. Depois vieram crises financeiras, emocionais e novas batalhas com a saúde mas nenhuma delas foi maior ou mais dolorosa do que os ataques sofridos por alguém que amo muito . Foi ali que compreendi que minha maior luta não era apenas por mim, mas pela proteção, pela dignidade e pela força dela.

Hoje sou outra pessoa, física e emocionalmente. Carrego fragilidades, sim, mas elas coexistem com uma força firme, construída na resistência diária. Muitos ficaram pelo caminho, e tudo bem.

Sigo viva. De pé. Enfrentando monstros visíveis e invisíveis, muitas vezes sozinha, consciente da minha capacidade de continuar. Não sou mais ou menos feliz , sou diferente. E essa diferença é o resultado de tudo o que atravessei .

 Acredito que demorei para assistir “É Assim que Acaba”,  devido a muitos gatilhos e ontem tive coragem . Claro , não dormi fiquei remoendo cada cena , a obra de Colleen Hoover,  no ponto de vista da psicanálise explora relações abusivas mostrando como traumas infantis e padrões inconscientes (o que não se lembra, mas se repete) influenciam escolhas amorosas e geram ciclos de violência, a psicanálise ajuda a compreender e romper esses padrões através da conscientização do passado e seus efeitos no presente, buscando a libertação e o autoconhecimento. É o que busco. Neide Ponzoni 

Entre Quentin Tarantino e Lar von Trier

 Então sou essa câmera dividida.

Eu sou intensidade em dois ritmos.

Há em mim  algo de Quentin Tarantino não no exagero vazio, mas na energia que não passo despercebida.Meu pensamento é rápido, palavras têm lâmina. Quando decido sentir, sinto inteiro. Quando reajo, é verdadeiro. Existe emm mim  uma coragem quase estética de não viver morno. Transformo  conflito em movimento. Dor em combustível. Caos em narrativa.

Mas também há  algo profundamente ligado a Lars von Trier.

Penso  demais. Observo demais.                          Permaneço em sentimentos que outros evitariam. Sou  intensidade não é só externo é interno, silencioso , reflexiva. Revisiti cenas  na mente. Analiso gestos, palavras, silêncios. Quando algo dói, não fujo imediatamente encaro , choro tambem . E isso exige força.

Sou contraste.

Por fora, posso parecer firme, até impenetrável.

Por dentro, existe profundidade, questionamento, vulnerabilidade que mostro para poucos.

Não vivo em superfície.

Ou é tudo, ou não é nada.E quando vou … posso estar com corpo ali porém a alma em outro lugar .

Não sei ser raso. Não sei  fingir indiferença por muito tempo.

Explodo quando necessário. E me recolho quando preciso entender o que estou sentindo.

E há abismo em mim 

E o mais interessante?

Esses dois lados não brigam eles me tornam complexa 

Eu não é exagero.sou minimalista . 

Sou intensidade consciente.

Se quiser, posso ir fundo , conheça  as sombras e minha luz depois diga se gosta . Neide Ponzoni

Inadequada ?


Há um nome para mim.
E ele chegou tarde.

Aos 54 anos descobri que sou SD/AH linguística.
Mas antes do nome, já existia a menina.

A menina que perguntava o que ninguém perguntava.
Que estranhava o mundo enquanto o mundo parecia confortável para os outros.
Enquanto desejavam o mesmo, sonhavam o mesmo, repetiam o mesmo,
ela observava.
Racionalizava.
Dizia o que pensava — não por soberba, mas por precisão.

Não se emocionava com qualquer coisa.
Só quando algo a tocava de verdade.
Só quando fazia sentido.

E por isso foi chamada de fria.
Estranha.
Exigente demais.

Descobrir isso tão tarde não é apenas receber um diagnóstico.
É atravessar um luto.
É olhar para a própria infância e sussurrar:
“Você não era errada.”

É perceber que aquela criança e aquela mulher atravessaram salas barulhentas demais,
conversas pequenas demais,
ambientes estreitos demais para a própria amplitude.

É doer pelo que poderia ter sido diferente.
Pelas vezes em que se forçou a caber.
Pelas vezes em que foi silenciada.

Depois do luto vem a negação:
Para quê saber?
O que muda agora?

Muda o olhar.
Muda a culpa.
Muda o modo de se permitir.

O cansaço social tem nome.
A seletividade não é arrogância, é preservação.
O incômodo com o raso não é desprezo — é fome de profundidade.

Mas o mundo, que se sente desconfortável diante de quem não se dilui,
prefere dizer:
“Você fala assim para se sentir melhor que os outros.”

E não é isso.

Não é sobre superioridade.
É sobre verdade.
É sobre coerência interna.
É sobre não precisar fingir entusiasmo pelo que não vibra dentro.

Quem vive com intensidade de pensamento aprende cedo que ser autêntica tem preço.
E quem descobre tarde aprende também que se respeitar não é vaidade — é sobrevivência.

Você não quer ser maior.
Quer ser respeitada.

Quer poder dizer “não vou” sem culpa.
Quer escolher onde estar.
Quer silêncios que alimentem.
Quer conversas que aprofundem.

Quer existir sem precisar se explicar o tempo todo.

Há algo por trás disso tudo — e não é orgulho.
É cansaço.
É lucidez.
É a maturidade de quem finalmente entende a própria arquitetura interna.

Aos 54, você não quer aplausos.
Quer dignidade.

E talvez o maior ato de coragem agora
não seja provar nada a ninguém 
mas acolher aquela menina inquisitiva,
dar a ela a paz que faltou,
e dizer:

“Eu sei quem você é.
E você não precisa mais diminuir sua luz para caber.”