terça-feira, 24 de março de 2026

Análise

 Eu estou com modo análise ativado , mas não de forma  fria, é clínica. É um tipo de análise que pulsa. Que dói enquanto organiza. Eu olho para os mitômicos e narcisistas que orbitam minha vida como quem disseco um fenômeno ,mas o fenômeno me atravessa.Eu vejo o padrão: a construção de narrativas onde eles são sempre o centro, o herói, o injustiçado. E, curiosamente, eu apareço ,quando apareço como distorção. Como erro. Como causa. Nunca como consequência.

E isso corta.Não é um corte limpo. Não é bisturi. É lâmina cega, repetida, insistente. Rasga mais do que abre. Demora mais do que deveria para cicatrizar. E enquanto ainda sangra, eles seguem… intactos. Ou melhor: performando intactos. Vivendo como se nada tivesse sido feito. Como se nenhuma palavra tivesse pesado. Como se nenhuma ausência tivesse sido construída.E eu fico com a tarefa invisível: entender, recompor, dar nome ao que aconteceu. Filosofar sobre a dor enquanto ainda sinto ela quente. Procurar sentido quase como quem mexe em ervas , tentando encontrar cura no que ainda arde.

O mais perverso talvez não seja o corte. É a inversão.É quando a ferida que recebo retorna para mim como acusação. Como se eu fosse a origem daquilo que me dilacera. Como se minha reação fosse o problema e não a ação que a provocou.

E aí eu penso: até onde vai minha responsabilidade? Até onde eu estou analisando para compreender e a partir de quando começo a me violentar tentando justificar o injustificável?

Essa semana estou assim: menos tolerante com ilusões. Inclusive as minhas.

Porque existe um ponto em que entender o outro deixa de ser sabedoria… e começa a ser abandono de si.

E talvez a análise mais difícil não seja sobre eles.

Seja sobre o momento exato em que eu preciso parar de olhar, parar de explicar, e simplesmente… não me deixar cortar de novo.Neide Ponzoni

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