Cinquenta e Quatro Outonos
Cinquenta e quatro outonos me atravessam a pele, mas não me levaram o brilho. O tempo soprou forte, arrancou certezas, mas plantou raízes invisíveis — e essas, ninguém me tira.
Não tenho ouro, nem terras, tenho poucos títulos, nenhuma cifra. As contas pesam nos ombros, os dias, às vezes, apertam o peito como uma noite sem lua. E há essa doença, essa sombra que me lembra que sou feita de carne e limite. Mas há também a cultura, os livros que li, os versos que escrevi, as histórias que escutei e que, em mim, floresceram. Há um império dentro de mim que não se mede em moedas, mas em pensamentos livres.
Tive filhos. E mais do que tê-los, acreditei neles. Ensinei que o mundo pode ser cruel, mas que a bondade ainda vale a pena. Plantei sonhos nos olhos deles, porque mesmo que a vida seja pedra, é na dureza que se lapida o diamante.
E mesmo quando a solidão me espreita, quando o silêncio pesa como chumbo, sei que sou mais do que a falta, sou mais do que a dor. Minha força não está nas posses, mas naquilo que ninguém pode roubar.
Caminho entre crianças, com as mãos cheias de histórias, com um olhar que entende suas dores, porque já fui semente, já fui flor frágil no vento. E sei que dentro delas há mundos esperando para nascer.
Cinquenta e quatro anos. E eu ainda estou aqui. Ainda sou chama, ainda sou raiz e sei que a vida presta ! Neide Ponzoni