Mudez seletiva .
Enquanto a filha arrumava as malas, seu estomago doía.
A filha falava animada com a viagem e o emprego em outro país, o seu coração batia descompassado, seu sorriso para animação da filha era um apelo silencioso. Ela estava num conflito imenso, queria ver a filha livre, voando, mas sentiria muito, muito sozinha. Sua companheira iria para longe.
Seu casamento estava ali, não teria mais porque vivê-lo. Era somente um dia após o outro, o amor tinha se transformado em bom dia. Segurava as lágrimas e dobrava as roupas.
Sentiu enorme vontade de gritar, mas segurou.
Na manhã seguinte acordou rouca. Levou a filha no aeroporto, seu corpo doía. Voltou pra casa e chorou. O marido reclamava dizendo que não era nada, que tudo era uma grande bobagem e que os filhos crescem mesmo e tem que procurar o seu rumo. Ele falava e ela chorava, sentia o ninho vazio. Ele sentou no sofá e ali permanecia reclamando que ela era sensível demais, mole demais, e por muitas vezes chata demais. Que ele estava cansado de uma casa onde nada esta no lugar, uma esposa que não correspondia suas expectativas, e falava e falava.
Passado alguns dias sua voz foi ficando mais fraca, não tinha vontade de falar. Ela que tanto usava a voz, resolveu que não falaria mais, cansara de argumentar, discutir, tentar ser ouvida por tantos e não obter retorno. Sua vingança seria dura, sua casa seria silenciosa.
A princípio o marido nem percebeu, o silencio para ele o paraíso alcançado, mas com o passar do tempo quis conversar, ela não tinha voz, emudecera de vez.
Ele desesperado com a situação a levou em muitos especialista, fonos, otorrinos , igrejas , benzedeiras, e nada a voz acabara , ela aceitou o afastamento do trabalho como férias eternas e nada respondeu.
Sentia bem, não havia mais necessidade de falar. Pra que? Ela não queria. De vez em quando sentia saudades do som da sua voz , só saudades, muda estava muda permanecia.
A mudez era seletiva se comunicava somente com duas pessoas, que prometeram não contar, uma amiga e sua filha, com quem conversa por horas, mais ninguém ouvia sua voz.
Vendo que nada mudava aquela situação, a amiga convidou para fazer dança de salão já que a muito não saia de casa. Ela aceitou e pediu através de argumentos convincentes que dissesse a todos que era muda, não iria falar, só dançar.
Ao chegar ao clube percebeu que o salão estava cheio, e ela dançou com todos, todos ritmos. Enquanto dançava lembrou-se da opção que fizera, casar e ser mãe,ser feliz ter uma profissão que não ocupasse tanto tempo, doce engano, o tempo tomou conta da sua vida. Naquela noite não falou só dançou.
Então, dançar tornou – se rotina, uma feliz rotina. Não só a dança, mas também um dos alunos, muito a interessava. Quando seu corpo a tocava ela sentia diferente, teve até vontade de conversar, mas resistiu. Assim seus dias foram preenchidos pelas músicas e movimentos ritmados.
O marido agora voltava cedo para casa, queria conversar e fazia tudo para agradá-la . Não havia mais viagens de trabalho, reuniões de negócios, insistia em partilhar sua vida queria que ela procurasse um especialista e voltasse a falar, queria viver novamente a grande paixão que sentiu, sentia falta dela. Para ela nada disso importava, tinha saturado , ele tinha se tornado um nada . Para ele sobrava indiferença e mudez.
Certo dia ele chegou, a casa estava silenciosa, organizada, limpa, tudo como sempre pediu. Procurou por ela. Não a encontrou.
Neste momento ela bailava intensamente nos braços de outro. Cantavam juntos suas músicas preferidas, a mudez , para o outro acabara, começava então uma nova paixão.
Neide Ponzoni.
Bjos meus
Nenhum comentário:
Postar um comentário