quinta-feira, 18 de março de 2010

O espantalho e os girassóis.

Todos os anos aconteciam sempre o mesmo ritual, Vicente  era retirado do celeiro, trocavam suas roupas, seu chapéu e o colocava de pé junto as plantações de girassóis. O sonho nascia.
Para Vicente  era a melhor época do ano, seu sentimento era de alegria e proteção.
Ele amava o cheiro que o vento trazia, o formato das folhas e principalmente as cores daquelas plantas, poderia mais uma vez vê-los crescer, adorava a risada , a inocência, o choro e as hipóteses de vida que cada um tinha.
Vicente sentia reviver, tinha muito para ensinar e aprender com as belas flores amarelas.
Cada ano uma turma nova, cada ano um grupo para ensiná-lo a ter tolerância e amor.
Sua função era a proteção mas , além de protegê-las dos corvos ele as ensinavam a viver e ser, ensinavam a amar o vento, sorrir pra chuva, agradecer a terra.
Alguns eram imaturos desligados e pouco ouvia as fábulas que Vicente contava, outros se debruçavam e suas pétalas brilhavam entre uma história e outra, o tempo passava preguiçosamente.
Eram dias muito quentes, o sol era uma atração a parte, pois cada girassol teria que aprender a segui-lo sem deixar-se queimar.
O grande risco daquelas plantas na verdade na era o sol , eram os corvos, e estes eram sedutores demais .
Vicente  tinha que ser habilidoso pra não deixar que seus protegidos fossem dominados pela oratória dos pássaros pretos, que prometiam o mundo e depois os devoravam, sempre um caminho sem volta.
Vicente  muitas vezes teve que arriscar suas palhas.
Ele conta que certo dia, foi defender um lindo girassol apaixonado por um pássaro, a planta quase foi devorada, muitas de suas pétalas foram arrancadas e lançadas ao vento, ficaram cicatrizes profundas em caule e na alma do pequeno apaixonado.Outra história que Vicente gosta de contar , era de uma plantinha que recusava crescer , entrou neste caso a sabedoria do espantalho, que com carinho e atenção a convenceu que o mundo é bom e crescer é um processo natural.
Todo ano era assim, o espantalho permanecia vigilante até a florada dos girassóis, e na florada surgia a dança de uma coreografia ensaiada e cintilavam criando um quadro de perfeita harmonia , cintilavam um amarelo contagiante de vida.
Quando aproximava a colheita Vicente sabia que tinha cumprido a sua missão que lhe era imposta, mas que só lhe trazia prazer,vistos do alto da estaca onde ficava Vicente    os girassóis faziam ondas ao vento. Ele sabia que aquelas plantas tinham de um pouco de espantalho também, levava o sorriso emprestado dos girassóis amigos e o no pensamento o amarelo brilhante, contagiante, almas que fomentam o nascer de mais um dia que traz amarelo.
Logo Vicente seria guardado no celeiro e ansioso esperaria a nova plantação de girassóis.
Bjos meus .
Neide Ponzoni


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