sábado, 22 de novembro de 2025

 

Tarde da noite, você vem com palavras
Tão fora de hora, tão cheias de memórias
Quer abrir gavetas que eu já tranquei
Remexer saudades que eu nem toquei

Se eu disser que fiquei firme
Seria mentira, e você bem sabe
Mas o tempo moldou outros caminhos
Hoje, meus passos têm outros destinos

Você chegou tarde, é verdade
Meu presente não deixa espaço pro ontem
Você foi página bonita, mas o livro virou
Quer reencontrar quem eu era — mas esse alguém mudou

Digo que senti, doeu, sozinha.
Acredito que não cabe reconstruir
O que nunca existiu de verdade —
Foi ausência disfarçada de carinho,
Promessa sem raiz, sem abrigo.

Tem sono leve nessa casa
Corações pequenos em paz
E eu só desejo que encontre o que busca
Mas em outro olhar, em outro caSe eu disser que não senti

Estaria traindo o que vivi
Mas o querer não basta
Quando o agora fala mais alto que o passado

Não dá mais pra matar sua saudade
Meu hoje me ensina a não voltar
Você foi luz em um tempo distante
Mas a estrada seguiu, sem chance de voltar

Os meus dormem, e eu velo
Essa imagem não combina com o que você espera
Vai em paz, mas não insista
Alguns capítulos não pedem reescrita

Meio - fio .

 O meio-fio era meu pequeno mundo elevado,

uma linha de concreto onde eu aprendia

a arte do equilíbrio

ora com uma perna só,

ora com o coração inteiro.

Sentava ali, na borda entre o seguro e o desconhecido,

entre a casa que me guardava

e a rua que se abria em vastidão.

Olhava os pneus passarem tão perto,

tatuando no asfalto desenhos que só eu acreditava ver:

círculos de pressa, marcas de destino,

tamanhos que falavam de forças maiores que a minha.

Depois das chuvas, ficava espiando

o que a água trazia

folhas viajantes, pequenos segredos,

um mundo miúdo que se acumulava

nesse limite silencioso.

O meio-fio tinha outra cor,

nem calçada nem rua,

uma fronteira discreta

que me ensinou que a vida cabe nos intervalos:

no quase, no por pouco,

no passo que hesita antes de tocar o chão.

Ali, naquela risca de cimento,

aprendi que crescer talvez seja isso

olhar para fora, sem deixar de ter um lugar

onde sentar e respirar.

Um lugar firme, estreito,

mas meu.Neide Ponzoni

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Acidente

 A MORTE

(minha única preocupação sempre foi a prudência… e mesmo assim não adiantou)

Nunca gostei de ir ao mercado.

Sempre foi cheio demais, barulhento demais, gente demais.

E além disso… eu sempre fui do tipo prudente. Minha única preocupação na vida sempre foi prudência evitar riscos, confusões, acidentes.

Mas naquele dia, mesmo com aquele peso estranho no corpo, eu fui.

Quando estendi a mão para pegar a água de coco, uma voz masculina surgiu às minhas costas, baixa e muito perto:

— Estranho comprar água de coco… quando tem coco natural logo ali.

Virei devagar.

Um homem alto, me observava como se já me conhecesse.

— É mais fácil. Não preciso quebrar respondi, sem entender por que estava explicando algo tão banal a um estranho.

Segui para o corredor do sabão.

Mal toquei o sabão líquido, ele apareceu ao meu lado de novo.

— Por que não leva o em pó? Dura mais ele disse, sem me olhar nos olhos, apenas encarando o produto na minha mão.

— Porque eu gosto do líquido  respondi, seca.

Ele inclinou a cabeça, como se analisasse minha resposta.

A essa altura, meu coração já batia errado.

Fui para as laranjas Bahia. Ele chegou tão perto que pude ouvir sua respiração.

— Essas são a que sempre come … murmurou.

Meu estômago gelou.

— Você está me seguindo?  perguntei.

Ele sorriu, um sorriso pequeno demais, quase um reflexo.Não esqueça tudo sem lactose …. 

Não respondi 

Me afastei rápido, peguei o carrinho e fui direto ao caixa. A moça não levantou o rosto. Passou minhas compras como se estivesse sozinha no mundo. Nem quando falei “boa tarde” ela reagiu.

Peguei a sacola e saí, sentindo meu braço latejar.

E lá estava ele de novo, plantado na saída.

— Quer ajuda? perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Balancei a cabeça e apressei o passo.

Ele veio atrás.

— Moro ali também comentou, casual.

Meu estômago virou. Ferrou.

Quase passamos juntos pela catraca do condomínio. Minha biometria falhou nunca falhava.

A dele passou na hora.

O segurança não respondeu meu “boa tarde ”.

Tive a sensação de que ninguém me via.

Subi mancando, cada passo doendo.

O homem apareceu no corredor, pegou minha sacola sem pedir.

— Eu carrego  disse apenas.

Algo em mim ficou paralisado. Não consegui reagir. Minha perna queimava. Meu nariz sangrou.

Entrei em casa. Meu cachorro, veio correndo… mas ao chegar perto, ele parou, olhou para mim, e deitou no chão como se estivesse triste. Não pulou, não pediu carinho.

Aquilo me deu um arrepio.

Meu marido chegou pouco depois.

— Tô passando mal  sussurrei.

— Uhum murmurou ele, distraído, como se eu estivesse no outro cômodo. Pegou algo no quarto e saiu sem olhar pra mim.

A dor subiu para minha cabeça. Comecei a ficar tonta. Peguei a bolsa: precisava ir pra UPA.

Quando abri a porta, o homem estava lá. Como se nunca tivesse ido embora.

— Vai sair agora?  perguntou, como quem pergunta as horas.

Explodi:

— Por que você está me perseguindo? Você me conhece? O que você quer? Isso é o quê? Se você não parar, eu vou chamar alguém!

Ele levantou as mãos devagar.

— Calma. Está tudo bem. Eu só estou indo para a portaria.

Mas a voz dele não parecia tentar me acalmar… parecia me preparar.

Desci.

Na catraca, ele novamente, parado, me observando passar.

Fui até a portaria. O guarda estava agitado, nervoso, sem me olhar. Também não respondeu meu “boa tarde ”.

A avenida estava tomada de ambulâncias e bombeiros. Luzes piscando, gritos, correria.

Acidente, pensei. Grande.

Cheguei perto para atravessar e vi meu marido , meu filho  mudo e minha filha gritava ,não vá “ ela não pode ir “ ela era prudente “ “‘.,Ajoelhados no chão entre os bombeiros que falavam rápido com alguém.

Olhei para o lado.

E ali estava eu.

Meu corpo.

Quebrado

Ensanguentado.

Imóvel.

Meu coração parou dentro de mim o que quer que estivesse ali.

Por isso a caixa não me viu.

Por isso o porteiro não respondeu.

Por isso meu marido não ouviu minha voz.

Por isso…

Eu morri.

Um motoqueiro chorava de joelhos.

Meu nariz voltou a sangrar mas agora eu sabia: não era sangue. Era o fim.

O homem apareceu ao meu lado, silencioso.

— Agora entende — disse ele, olhando para o acidente. — Venha comigo … 

— Quem… quem é você? — minha voz mal saía.

Ele estendeu a mão.

Quando tocou a minha, seu rosto mudou — como se a pele se desfizesse, mostrando apenas sombra, calmaria e inevitável destino.

Tudo apagou.Neide Ponzoni 

domingo, 16 de novembro de 2025

Em busca da Terra do Nunca

 Talvez por causa da fase que estou passando, revisitar filmes antigos tem sido quase um mergulho em mim mesma; e embora eu jamais tenha gostado muito de Peter Pan sempre o associei a homens que se recusam a crescer dessa vez deixei minhas impressões sobre a infantilização masculina de lado e assisti . Talvez querendo mesmo fugir para outro lugar . Em Busca da Terra do Nunca (2005)!com outros olhos.

“Em Busca da Terra do Nunca” é um filme emocionante, que relata a história de todos nós, crianças que um dia crescem.

Barrie desejava que preservássemos a inocência que um dia carregamos como luz,

que olhássemos o mundo e seus pequenos objetos com a leveza de quem ainda pode imaginar,que não permitíssemos que as adversidades engolissem o que temos de mais íntimo.

No entanto, o maior valor de “Em Busca da Terra do Nunca” reside em algo ainda mais profundo: ele se ergue como a mais pura expressão da magia do cinema,

o fascínio silencioso capaz de nos tocar, transformar e nos fazer lembrar da parte de nós que ainda acredita mesmo quando o mundo insiste em nos fazer crescer.Neide Ponzoni

Aftersun

 Ontem eu assisti Aftersun foi como abrir um álbum de fotografias que alguém deixou esquecido numa gaveta imagens iluminadas pelo sol, mas atravessadas por algo que não se vê à primeira vista. O filme entra devagar, com a doçura das pequenas rotinas entre pai e filha, e aos poucos revela o peso silencioso que existe por trás de cada gesto, como se a câmera filmasse também aquilo que não foi dito.

Assistindo, a gente sente uma ternura imensa e, ao mesmo tempo, uma melancolia que cresce sem pedir licença. É a dor suave de perceber que certos momentos bonitos só se entendem muitos anos depois; que a memória às vezes nos protege, às vezes nos fere, e quase sempre nos devolve a pergunta: o que realmente aconteceu?

No fim, fica um aperto no peito não violento, mas daqueles que acompanham a lembrança de um amor frágil, incompleto, humano. Aftersun deixa a sensação de que estivemos diante de algo profundamente íntimo, uma despedida disfarçada de férias, um retrato de duas pessoas tentando se alcançar, mesmo quando alguma distância invisível as separa.

É um filme que não termina quando acaba. Ele continua dentro da gente, como uma luz que pulsa no escuro, lembrando que crescer também é tentar compreender aqueles que amamos tarde demais, cedo demais, do único jeito que podemos.

A cena da pista de dança em Aftersun é, talvez, o coração emocional do filme o momento em que tudo o que estava apenas sugerido finalmente se revela, não por palavras, mas por gestos, luz e música.

Ali, Sophie adulta tenta alcançar o pai que ela lembra, como se aquela pista fosse um espaço entre mundos: passado e presente, memória e verdade, amor e ausência. A música — pulsante, quase hipnótica — cria um contraste violento entre o que vemos e o que sentimos. É uma canção de festa, mas a atmosfera é de implosão emocional.

Calum dança sozinho, como se estivesse preso dentro de si, tentando manter uma energia que o corpo não sustenta mais. A luz estroboscópica congela pequenos fragmentos dele, como flashes de uma lembrança que Sophie tenta segurar, mas que sempre escapa. Cada estalo de luz é um pedaço de quem ele foi, um pedaço de quem ela tenta entender.

Sophie adulta entra na cena como se estivesse buscando o pai na multidão, tentando tocá-lo através das décadas, mas ele parece sempre distante não por falta de amor, mas por algo que ela nunca conseguiu ver totalmente quando criança.

É uma cena que explode aquilo que o filme inteiro sussurra: a impossibilidade de realmente compreender alguém que amamos, mesmo quando tentamos com todas as forças. O abraço que não chega. O grito que não sai. O encontro que nunca se completa.

No fim, a pista de dança se torna um espaço simbólico: o lugar onde a Sophie adulta finalmente encara o vazio deixado por esse pai, e onde o pai, na lembrança dela, parece desaparecer pela última vez não como rejeição, mas como despedida.

😢chorei muito .

domingo, 14 de setembro de 2025

 Vamos ficando mais calmos,

mais nossos,

mais sozinhos e tudo bem.

Não é ausência, é presença em outra forma.

É o silêncio onde antes havia risos altos,

é o cinema em uma poltrona só,

o show que agora assisto de olhos fechados,lugar escolhido sozinha 

porque a música toca mais dentro do que fora.

Vamos perdendo gente no caminho 

não por falta de amor,

mas por sermos  diferentes. Ideia distintas , 

Já não cabe todo mundo no mesmo brinde.

O vinho que antes passava de mão em mão hoje é taça única,

lembrança vaga de um amor que foi,

ou de uma amizade que, por um tempo,

foi casa.

A gente tenta manter, mas cansa.

Cansa explicar, cansa insistir.

E um dia, simplesmente, deixamos ir.

Os que ficam, ficam porque não exigem tradução.Sempre pergunto porque quanto tempo ficarão ? 

Porque ainda entendem no olhar cansado,

no silêncio confortável,

na ausência de performance.

As conversas diminuem,

mas ganham densidade.

Os encontros escasseiam,

mas são verdadeiros.

E quando bate a saudade 

daqueles tempos,

daquelas pessoas,

daquela versão de nós  não dói.

É só memória viva,

que nos visita com ternura, e parte em paz.

Porque mudamos, e que sorte a nossa

sermos seres capazes de se refazer,

de se respeitar, de seguir… bjos meus . Neide Ponzoni 

 Outro dia ouvi uma fala : sempre que escolher o novo o velho vai tentar manter permanente “ Sempre que escolho o novo,

o velho faz cena.

Promete bolo no fim da festa,

Ou aumento no fim do mês,

viagem no fim do mundo .

“Fica”, ele sussurra,

com voz de conforto que prende.

“Pra que mudar, se já tem teto,

se já tem chão,

se já me tem aqui?”

Mas o teto pesa,

e o chão já não canta sob os pés.

É conforto de prisão,

é abraço de costume,

é amor que só te vê quando sangras 

e chama isso de prova.

Por que só te valorizam

quando doer em ti mais do que neles?

Por que tua entrega precisa doer

para ser crida?

Como se o amor só fosse real

se fosse ferida aberta

e não escolha viva.

O velho insiste:

"Fica, prometo mudar."

Mas a promessa dele

nunca vem antes da tua partida.

Só depois.

Depois do "não aguento mais",

depois do silêncio,

depois do choro em segredo.

E ainda assim,

você quase volta.

Quase cede.

Quase crê.

Mas o novo não grita,

o novo sussurra.

É leve,

assusta pela paz.

É terra onde ninguém sangra pra ser visto,

é laço que não aperta,

é caminho que floresce.

E você vai.

Mesmo com medo.

Mesmo com o velho fazendo cena.

Porque aprendeu:

permanência sem alma

é só repetição com nome bonito.Bjos meus 

Neide Ponzoni 

sábado, 6 de setembro de 2025

 Assumir minha fé foi como abrir um portão antigo,de ferro batido e história esquecida.

Atrás dele, cantos que não sabia, cheiros de ervas que limpam a alma e 

 uma dança que gira o mundo no sentido certo.

Não entrei por acaso , nem por susto.

Entrei porque fui chamado e quando Exu chama,a alma reconhece o caminho antes dos pés.

Mas aqui fora…o preconceito se esconde, ofende rindo , se mascara de preocupação,de “cuidado com essas coisas”,

Ignoram que o tambor é coração batendo em terreiro,que o orixá não pede medo, mas respeito,que cada guia que me acompanha já viram mais do que mil livros poderiam contar.

Carrego no peito o axé dos meus,

e nos ombros a poeira de quem andou antes de mim.

Porque ser de religião de matriz africana

é rezar com os pés no chão e os olhos no infinito.

É falar com os mortos para viver melhor com os vivos.

Peço ao povo da encruzilhada: me fortaleça.

Firmem minha fé quando a dúvida for sombra.

Orixás da minha coroa,sejam olhos para aquilo que ainda não vejo.

Recolham os ataques escondidos em sorrisos,limpem com arruda as palavras travestidas de cuidado,

e me cubram com a força ancestral

que não se explica se sente.

Eu sou de onde o vento gira e leva embora a mentira.

Sou da força que vem do chão,

do canto que cura,

do silêncio que escuta.

Sou de fé preta, de raiz funda.

E se incomoda,

é porque ainda há muita ignorância se fazendo de luz. Neide Ponzoni  

quarta-feira, 20 de agosto de 2025


Tarde da noite, você vem com palavras fora de tempo ,
Tão fora de hora, tão cheias de memórias
Quer abrir gavetas que eu já tranquei
Remexer saudades que eu troquei 

Se eu disser que fiquei firme
Seria mentira, e você bem sabe
Mas o tempo moldou outros caminhos
Hoje, meus passos têm outros destinos

Você chegou tarde, é verdade
Meu presente não deixa espaço para  ontem
Você foi página bonita, mas o livro virou
Quer reencontrar quem eu era mas esse alguém mudou

Digo que senti, doeu, sozinha.
Acredito que não cabe reconstruir
O que nunca existiu de verdade —
Foi ausência disfarçada de carinho,
Promessa sem raiz, sem abrigo.

Tem sono leve nessa casa , meus filhos adultos com 
Corações pequenos em paz
E é o desejo , que encontre o que busca
Mas em outro olhar, em outro cais

Se eu disser que não senti
Estaria traindo o que vivi
Mas o querer não basta
Quando o agora fala mais alto que o passado

Não dá mais pra matar sua saudade
Meu hoje me ensina a não voltar
Você faz parte tempo distante
Mas a estrada seguiu, sem chance de voltar

Os meus dormem, e eu velo
Essa imagem não combina com o que deseja …
Alguns capítulos não pedem reescrita bjos meus .Neide Ponzoni 

domingo, 17 de agosto de 2025

 Nem sempre o silêncio começa com o calar da voz. Muitas vezes, ele nasce da forma como uma opinião é recebida ou ignorada. Quando alguém ousa pensar diferente e expressa o que sente ou acredita, está oferecendo um pedaço de si. É um gesto de coragem, um convite à escuta mútua. Mas nem todos sabem acolher o que é diferente.

Frases como “é assim mesmo”, “não liga “ “gosta de discordar” parecem, à primeira vista, inofensivas. Às vezes ditas com um sorriso, às vezes com leveza. Mas carregam, em seu subtexto, a recusa. A recusa de ouvir de verdade, de reconhecer a legitimidade de um outro olhar. E essa recusa, quando repetida, vai desenhando um contorno claro de exclusão.

A pessoa que opina diferente começa a perceber: seu espaço para falar não é o mesmo. O que ela diz é constantemente diminuído, reduzido a um traço de personalidade como se pensar diferente fosse um defeito. E, com o tempo, o entusiasmo vai se retraindo, a voz vai perdendo força, e ela escolhe o silêncio, não porque não tenha o que dizer, mas porque entendeu que ali, suas palavras não encontram abrigo.

É um processo lento e invisível mas real. O silenciamento nem sempre é imposto de forma direta. Às vezes ele acontece na sutileza da negligência, no desprezo velado, no rótulo que cala mais do que escuta. E o mais doloroso é que, muitas vezes, quem cala o outro nem percebe. Acha que está apenas “evitando conflitos”, “levando na leveza”, “não dando importância”. Mas é justamente essa falta de importância que machuca.

Escutar alguém que pensa diferente é um exercício de presença, de empatia, de humildade. Não se trata de concordar, mas de acolher. De permitir que o outro exista com sua própria voz, mesmo quando essa voz não reflete a nossa.

Todos precisamos ser ouvidos de verdade. Porque quando o espaço de fala é negado, o espaço de ser também vai desaparecendo.

E ninguém deveria precisar gritar para ser reconhecido. Neide Ponzoni .

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Férias

 Férias

Minhas férias não foram feitas de mapas,

nem de bilhetes carimbados ou encontros ruidosos em bares e restaurantes …

Fiquei em casa,

entre as gavetas da alma

e os armários do tempo,

tirando poeiras antigas,

dobrando lembranças,

jogando fora o que já não me serve mais .Uma cirurgia nos olhos

me afastou do mundo lá fora,

mas me aproximou de mim.

Com pouca visão,

aprendi a enxergar o essencial:

os silêncios que gritam,

as verdades que escondo,

os medos que me vestem.

Foram dez dias de caos e silêncio,

até entender a luz 

a que vem de dentro,

quando tudo escurece.

Não vi exposições,

nem os poucos amigos que tenho.

Mas me expus.

Me revi.

Me entendi.

Volto agora

para o trabalho que escolhi

e conquistei

Mais inteira.

Sabendo, 

o valor que carrego no breu e na luz ! Neide Ponzoni

Não é uma luta

 Não é uma luta


Não gosto da palavra luta.

Ela carrega espadas,

ela elege um vencedor

e sempre deixa um vencido.

Quando dizem

"perdeu a luta contra o câncer",

parece que o câncer venceu.

Mas quem viveu com ele

não foi fraco , foi imenso.

O câncer não é uma batalha,

é um furacão que passa por dentro.

É o corpo pedindo ajuda em silêncio,

é a ciência buscando respostas,

é a alma agarrada ao tempo.

E morrer de câncer

é um soco no estômago do mundo.

Porque a gente acredita na cura,

espera pela esperança,

faz promessas ao universo.

Mas às vezes não dá.

E não é derrota 

é travessia.

É o corpo cansado 

é a vida se transformando

em algo que não entendemos.

Quem tem câncer

carrega um surreal que não se explica.

Junto vem uma solidão estranha,

uma sensação de estar entre mundos,

sem chão, sem mapa, sem nome.

E toda vez que alguém parte assim,

fico dias em silêncio,

pensando na vida,

na morte,

nessa estrada que todos seguimos

mas evitamos olhar de frente.

Não, não é uma luta.

É um caminho duro,

é um mar revolto,

é amor até o fim.

E quem passa por isso

merece mais que um rótulo 

merece reverência. Neide Ponzoni

sábado, 28 de junho de 2025

Falta

 Tem noites que eu fico  morrendo de saudades. Querendo contar pra você alguma coisa bonita ou ruim que me aconteceu.Ou mostrar uma musica, ou uma poesia  ou uma pessoa. Eu queria falar pra você dos poemas do Pessoa , dos meus dias no meio e cheio de barulhos e poucas palavras ,  do livro que eu tô lendo ou do texto que tô escrevendo , das pessoas que tem cruzado meu caminho. Vamos ver o que a vida oferece né Neide ? Assim você me falava com uma risada única . Vamos Ver ? Vamos.Vamos .... e não fomos . Eu te conto tudo em pensamento . Tomara que ouça . A noite é que  tenho mais saudades ....que falta me faz 😞

Felicidade

 Hoje o mar faz onda feito criança

No balanço calmo a gente descansa

Nessas horas dorme longe a lembrança

De ser feliz

Quando a tarde toma a gente nos braços

Sopra um vento que dissolve o cansaço

É o avesso do esforço que eu faço

Pra ser feliz

E o que vai ficar na fotografia

São os laços invisíveis que havia

As cores, figuras, motivos

O Sol passando sobre os amigos

Histórias, bebidas, sorrisos

E afeto em frente ao mar

Quando as sombras vão ficando compridas

Enchendo a casa de silêncio e preguiça

Nessas horas é que Deus deixa pistas

Pra eu ser feliz

Quando o dia não passar de um retrato

Colorindo de saudade o meu quarto

Só aí vou ter certeza de fato

Eu fui feliz

E o que vai ficar na fotografia

São os laços invisíveis que havia

As cores, figuras, motivos

O Sol passando sobre os amigos

Histórias, bebidas, sorrisos

E afeto.. Bjos  meus ! Neide Ponzoni 

quinta-feira, 20 de março de 2025

54 outonos

 Cinquenta e Quatro Outonos

Cinquenta e quatro outonos me atravessam a pele,
mas não me levaram o brilho.
O tempo soprou forte, arrancou certezas,
mas plantou raízes invisíveis
— e essas, ninguém me tira.

Não tenho ouro, nem terras,
tenho poucos títulos, nenhuma cifra. 
As contas pesam nos ombros,
os dias, às vezes, apertam o peito
como uma noite sem lua.
E há essa doença,
essa sombra que me lembra
que sou feita de carne e limite.
Mas há também a cultura,
os livros que li, os versos que escrevi,
as histórias que escutei e que, em mim, floresceram.
Há um império dentro de mim
que não se mede em moedas,
mas em pensamentos livres.

Tive filhos.
E mais do que tê-los,
acreditei neles.
Ensinei que o mundo pode ser cruel,
mas que a bondade ainda vale a pena.
Plantei sonhos nos olhos deles,
porque mesmo que a vida seja pedra,
é na dureza que se lapida o diamante.

E mesmo quando a solidão me espreita,
quando o silêncio pesa como chumbo,
sei que sou mais do que a falta,
sou mais do que a dor.
Minha força não está nas posses,
mas naquilo que ninguém pode roubar.

Caminho entre crianças,
com as mãos cheias de histórias,
com um olhar que entende suas dores,
porque já fui semente,
já fui flor frágil no vento.
E sei que dentro delas há mundos
esperando para nascer.

Cinquenta e quatro anos.
E eu ainda estou aqui.
Ainda sou chama,
ainda sou raiz e sei que a vida presta ! Neide Ponzoni

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Encontro

 Ontem eu chamei a Neide de 20 anos para tomarmos um café . Cheguei antes , pois sabia que ela tinha muitas expectativas e precisaria de longo tempo de conversa . Quando a Neide de 20 anos chegou ficou parada na porta do café com a sensação de deveria ou não entrar . Sentia que aquele ambiente não fazia parte da sua rotina . Acenei para ela que entrou e sentou na minha frente com seus cabelos muito curtos pretos ,camiseta preta , calça jeans e tênis . Olhou ao redor e perguntou se costumava tomar café ali . Eu sorri e disse que não . Era um encontro especial que eu ainda gostava mesmo era pão na chapa e café com leite ( agora sem lactose ) . Eu a achei linda , um jeito andrógeno . Sua mochila parecia pesada e ela colocou ao lado . Ela passou a mão nos meus cabelos e riu sou uma loira grisalha , sei que não gosta que toque ela disse , mas parece diferente a texturas cabelo e seu corpo e óculos mudaram. Ajeitei minha bolsa pesada ao lado também . Ela me observou e comentou da roupa…. Tênis , camiseta preta e jeans . “Vou mudar muito ? “ Eu disse um pouco , mas camiseta e tênis são nossa marca somos pelo conforto . “Vou  fazer faculdade ? Vou viajar ? Aprenderei dançar ? E o PSTU , e o PT e PCO ? Vou ter emprego ? Vou amar alguém ? E o pai e a mae como ficarão? E as meninas e os meninos lá de casa ? Você é feliz? “ As perguntas vinham e eu pensando como contar quase 34 anos . Você perderá muitos que ama, e receberá outros. Ela me tirou os óculos e pediu  que por favor parábola não . Vai demorar para fazer faculdade porém terá vários diplomas e graduações. “História ? Filosofia ? “ Ri alto … não letras e terá emprego público “. Não me fale que darei aula de inglês ? “Não isso não . Vai trabalhar com crianças por muitos anos , ou melhor trabalhamos bebês . Bebês ? “ Ah não … Não me diga que terei filhos ? “Sim dois . Ai estará seu amor e colo são lindos e inteligentes , meios deprês e adoram um pix . “ Como assim deprê ? O que é deprê e o que pix .? Vou casar ? “ Ahhh ! Sim vai . Estou casada com ele ainda . “ Eu conheço ? “Não . A ele não fala espanhol . Vi seus olhos baixarem …. “Filhos , marido , emprego público . Sou comum . “ Nunca será comum . Vou te alegrar Lula chegará no planalto e você verá isso acontecer mais de uma vez . PSTU te decepcionará … Na mochila tinha um bóton do partido nessa  ela passou a mão e a tristeza rondou olhar . E o pai e a mae estão bem ? Estão velhinhos ? “ O pai e Fábio se foram . Um soluço profundo surgiu . “E a mae ? “ Está em Minas as vezes da gente outras não . “Ela mora ainda na vila ? “Não .Mora perto de lá. “E as meninas ? “ Estão aqui pertinho nos vemos sempre . Teremos muitos sobrinhos e sobrinhas . “ Vou ser feliz ? “As vezes sim . Viajará pouco . Terá um grande conhecimento sobre tudo. “Me conta … “ celular nesse momento toca . Atendo  ela me olha com espanto. Coloco no viva voz e ouve a voz filha. Ao desligar ela me olha com espanto . “ Você ou melhor nós estamos doente ? “Com velocidade na fala trago para menina o peso que carregaria . Ela respira e pergunta ficaremos bem? Balanço  ombros quem sabe ? Então pego celular e mostro fotos, momentos alegres e tristes . Tudo ali no aparelho . “Ahhhterei filhos lindos ! “Onde moramos ? De novo longa história . Tem bichos e plantas ? Sorrio e digo que sim . Gosta ainda de rock ? Picolé ? Manga ? Acredita em bruxas ? Já foi provado que elas existem ? Viu o Dinho ? E a Legião ? Vai ao cinema ? Você lê ? Rio alto e digo sim para tudo . Somos ricas ? Respondo que operárias da educação . “ Que livro está lendo ? “ Tiro da bolsa um livro sobre feminismo . Agora ela ri . Não mudamos tanto né . Ela abre a mochila e tira rabisco da reunião do partido … e letras de músicas escritas , poesias  papéis de bala num diário. Coloco uma banda para ela ouvir … ela ri e repete mudamos muito . Ficamos muito tempo juntas . De repente ela levanta e diz preciso ir . Digo Neide seja forte . Ela repete Neide viva forte e leve , cuida de mim, não mudamos tanto assim . Não sei como foi … só sei que foi assim …

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Fim de férias !

 Hoje é o fim das minhas férias , nessa travessia de ano e 30 dias em casa, literalmente em casa . Vivenciando dores que doem tantas e tantas vezes, mas que sempre me tornam alguém mais próximo de quem eu quero ser.

Eu tenho sido um bom lugar para mim: me permito vazios e silêncios e quietudes .

Eu conquistei a melhor e maior coisa que eu poderia conquistar: a observação . Sei quem é quem . Já fui enganada,  mas agora só serei se eu quiser , ainda deixarei que pensem que sou tosca  . Não importa o processo, de lapidação , eu quero estar presente, dentro da evolução que cada momento traz , mesmo uma parada de trabalho de 30 dias. 

Estou em busca de uma paz que agora não me incomoda e no auge da minha meia idade que ela me encontre . 

Então, eu quero dizer aos Incontáveis Traumas, adeus! Aprendi o suficiente para me libertar.

Pessoas que me feriram, aprendi a perdoar: eu as liberto. Pessoas a quem feri, espero pode me reparar, era tudo o que eu sabia fazer momento .

Infância perdida, Sinto muito, aquela criança foi forte . Adolescência desperdiçada,Me perdoe , eu tinha que trabalhar . 

Vida adulta em recuperação,Saiba que tento muito todo dia .E, ao melhor que está por vir.

O criador dessa imensidão toda suprirá todas as minhas necessidades. 

Como posso melhorar?Ficando quieta ? Reagindo ? Como posso ser ainda mais leve, próspera, divertida, amiga? Esses mês confirmou  que milagres não acontecem . Porém tô na luta e lutarei bastante . Bom ano letivo para nós . Bjos meus ! Neide Ponzoni