quarta-feira, 20 de agosto de 2025


Tarde da noite, você vem com palavras fora de tempo ,
Tão fora de hora, tão cheias de memórias
Quer abrir gavetas que eu já tranquei
Remexer saudades que eu troquei 

Se eu disser que fiquei firme
Seria mentira, e você bem sabe
Mas o tempo moldou outros caminhos
Hoje, meus passos têm outros destinos

Você chegou tarde, é verdade
Meu presente não deixa espaço para  ontem
Você foi página bonita, mas o livro virou
Quer reencontrar quem eu era mas esse alguém mudou

Digo que senti, doeu, sozinha.
Acredito que não cabe reconstruir
O que nunca existiu de verdade —
Foi ausência disfarçada de carinho,
Promessa sem raiz, sem abrigo.

Tem sono leve nessa casa , meus filhos adultos com 
Corações pequenos em paz
E é o desejo , que encontre o que busca
Mas em outro olhar, em outro cais

Se eu disser que não senti
Estaria traindo o que vivi
Mas o querer não basta
Quando o agora fala mais alto que o passado

Não dá mais pra matar sua saudade
Meu hoje me ensina a não voltar
Você faz parte tempo distante
Mas a estrada seguiu, sem chance de voltar

Os meus dormem, e eu velo
Essa imagem não combina com o que deseja …
Alguns capítulos não pedem reescrita bjos meus .Neide Ponzoni 

domingo, 17 de agosto de 2025

 Nem sempre o silêncio começa com o calar da voz. Muitas vezes, ele nasce da forma como uma opinião é recebida ou ignorada. Quando alguém ousa pensar diferente e expressa o que sente ou acredita, está oferecendo um pedaço de si. É um gesto de coragem, um convite à escuta mútua. Mas nem todos sabem acolher o que é diferente.

Frases como “é assim mesmo”, “não liga “ “gosta de discordar” parecem, à primeira vista, inofensivas. Às vezes ditas com um sorriso, às vezes com leveza. Mas carregam, em seu subtexto, a recusa. A recusa de ouvir de verdade, de reconhecer a legitimidade de um outro olhar. E essa recusa, quando repetida, vai desenhando um contorno claro de exclusão.

A pessoa que opina diferente começa a perceber: seu espaço para falar não é o mesmo. O que ela diz é constantemente diminuído, reduzido a um traço de personalidade como se pensar diferente fosse um defeito. E, com o tempo, o entusiasmo vai se retraindo, a voz vai perdendo força, e ela escolhe o silêncio, não porque não tenha o que dizer, mas porque entendeu que ali, suas palavras não encontram abrigo.

É um processo lento e invisível mas real. O silenciamento nem sempre é imposto de forma direta. Às vezes ele acontece na sutileza da negligência, no desprezo velado, no rótulo que cala mais do que escuta. E o mais doloroso é que, muitas vezes, quem cala o outro nem percebe. Acha que está apenas “evitando conflitos”, “levando na leveza”, “não dando importância”. Mas é justamente essa falta de importância que machuca.

Escutar alguém que pensa diferente é um exercício de presença, de empatia, de humildade. Não se trata de concordar, mas de acolher. De permitir que o outro exista com sua própria voz, mesmo quando essa voz não reflete a nossa.

Todos precisamos ser ouvidos de verdade. Porque quando o espaço de fala é negado, o espaço de ser também vai desaparecendo.

E ninguém deveria precisar gritar para ser reconhecido. Neide Ponzoni .