quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Datas comemorativas

 Datas festivas, como o Natal e as celebrações de fim de ano, costumam carregar uma promessa de união, alegria e harmonia. No entanto, pela lente da psicanálise, é possível perceber que esse ideal muitas vezes funciona mais como um mandato social do que como uma experiência genuína. Espera-se que todos estejam disponíveis emocionalmente, afetuosos e gratos mesmo ainda que os vínculos ali presentes sejam frágeis, ambivalentes ou até dolorosos.

Freud já apontava que a vida em sociedade exige renúncias pulsionais. Nessas datas, essa exigência se intensifica: somos convidados a vestir máscaras de “bons anfitriões” ou “boas visitas”, reprimindo desconfortos, silenciando conflitos e encenando afetos. Esse esforço psíquico pode gerar cansaço e ansiedade, pois o sujeito se afasta do que sente para sustentar uma imagem idealizada de convivência. O que deveria ser encontro torna-se performance.

Do ponto de vista psicanalítico, o isolamento consciente quando escolhido e não imposto pode ser uma forma legítima de cuidado psíquico. Retirar-se não significa rejeitar o outro, mas reconhecer limites internos. Em vez de repetir rituais vazios, algumas pessoas encontram mais verdade em preservar o próprio espaço emocional, respeitando o que conseguem ou não sustentar naquele momento.

Talvez o desafio dessas datas não seja “sentir o que se espera”, mas permitir-se uma relação mais honesta com o próprio desejo. Um fim de ano saudável não precisa ser barulhento nem perfeitamente feliz; pode ser silencioso, simples e verdadeiro. E, do ponto de vista do inconsciente, isso já é muito.Eu opto pela solitude .Neide Ponzoni 

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