quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Morte

 A MORTE


(minha única preocupação sempre foi a prudência… e mesmo assim não adiantou)

Nunca gostei de ir ao mercado.

Sempre foi cheio demais, barulhento demais, gente demais.

E além disso… eu sempre fui do tipo prudente. Minha única preocupação na vida sempre foi prudência evitar riscos, confusões, acidentes.

Mas naquele dia, mesmo com aquele peso estranho no corpo, eu fui.

Quando estendi a mão para pegar a água de coco, uma voz masculina surgiu às minhas costas, baixa e muito perto:

— Estranho comprar água de coco… quando tem coco natural logo ali.

Virei devagar.

Um homem alto, me observava como se já me conhecesse.

— É mais fácil. Não preciso quebrar — respondi, sem entender por que estava explicando algo tão banal a um estranho.

Segui para o corredor do sabão.

Mal toquei o sabão líquido, ele apareceu ao meu lado de novo.

— Por que não leva o em pó? Dura mais — disse, sem me olhar nos olhos, apenas encarando o produto na minha mão.

— Porque eu gosto do líquido — respondi, seca.

Ele inclinou a cabeça, como se analisasse minha resposta.

A essa altura, meu coração já batia errado.

Fui para as laranjas Bahia. Ele chegou tão perto que pude ouvir sua respiração.

— Essas sempre te dão azia — murmurou.

Meu estômago gelou.

— Você está me seguindo? — perguntei.

Ele sorriu, um sorriso pequeno demais, quase um reflexo.Não esqueça tudo sem lactose …. 

Não respondi 

Me afastei rápido, peguei o carrinho e fui direto ao caixa. A moça não levantou o rosto. Passou minhas compras como se estivesse sozinha no mundo. Nem quando falei “boa tarde” ela reagiu.

Peguei a sacola e saí, sentindo meu braço latejar.

E lá estava ele de novo, plantado na saída.

— Quer ajuda? perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Balancei a cabeça e apressei o passo.

Ele veio atrás.

— Moro ali também — comentou, casual.

Meu estômago virou. Ferrou.

Quase passamos juntos pela catraca do condomínio. Minha biometria falhou nunca falhava.

A dele passou na hora.

O segurança não respondeu meu “boa noite”.

Tive a sensação de que ninguém me via.

Subi mancando, cada passo doendo.

O homem apareceu no corredor, pegou minha sacola sem pedir.

— Eu carrego — disse apenas.

Algo em mim ficou paralisado. Não consegui reagir. Minha perna queimava. Meu nariz sangrou.

Entrei em casa. Meu cachorro, veio correndo… mas ao chegar perto, ele parou, olhou para mim, e deitou no chão como se estivesse triste. Não pulou, não pediu carinho.

Aquilo me deu um arrepio.

Meu marido chegou pouco depois.

— Tô passando mal — sussurrei.

— Uhum — murmurou ele, distraído, como se eu estivesse no outro cômodo. Pegou algo no quarto e saiu sem olhar pra mim.

A dor subiu para minha cabeça. Comecei a ficar tonta. Peguei a bolsa: precisava ir pra UPA.

Quando abri a porta, o homem estava lá. Como se nunca tivesse ido embora.

— Vai sair agora? — perguntou, como quem pergunta as horas.

Explodi:

— Por que você está me perseguindo? Você me conhece? O que você quer? Isso é o quê? Se você não parar, eu vou chamar alguém!

Ele levantou as mãos devagar.

— Calma. Está tudo bem. Eu só estou indo para a portaria.

Mas a voz dele não parecia tentar me acalmar… parecia me preparar.

Desci.

Na catraca, ele novamente, parado, me observando passar.

Fui até a portaria. O guarda estava agitado, nervoso, sem me olhar. Também não respondeu meu “boa noite”.

A avenida estava tomada de ambulâncias e bombeiros. Luzes piscando, gritos, correria.

Acidente, pensei. Grande.

Cheguei perto para atravessar e vi meu marido , meu filho  mudo e minha filha friaca “ ela era pudente “‘.,Ajoelhados no chão entre os bombeiros que falavam rápido com alguém.

Olhei para o lado.

E ali estava eu.

Meu corpo.

Quebrado

Ensanguentado.

Imóvel.

Meu coração parou dentro de mim o que quer que estivesse ali.

Por isso a caixa não me viu.

Por isso o porteiro não respondeu.

Por isso meu marido não ouviu minha voz.

Por isso…

Eu morri.

Um motoqueiro chorava de joelhos.

Meu nariz voltou a sangrar mas agora eu sabia: não era sangue. Era o fim.

O homem apareceu ao meu lado, silencioso.

— Agora entende — disse ele, olhando para o acidente. — Venha comigo … 

— Quem… quem é você? — minha voz mal saía.

Ele estendeu a mão.

Quando tocou a minha, seu rosto mudou — como se a pele se desfizesse, mostrando apenas sombra, calmaria e inevitável destino.

Tudo apagou.Neide Ponzoni

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