quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Filha de fé

 Assumir minha fé foi como abrir um portão antigo,de ferro batido e história esquecida.

Atrás dele, cantos que não sabia, cheiros de ervas que limpam a alma e 

 uma dança que gira o mundo no sentido certo.

Não entrei por acaso , nem por susto.

Entrei porque fui chamado e quando Exu chama,a alma reconhece o caminho antes dos pés.

Mas aqui fora…o preconceito se esconde, ofende rindo , se mascara de preocupação,de “cuidado com essas coisas”,

Ignoram que o tambor é coração batendo em terreiro,que o orixá não pede medo, mas respeito,que cada guia que me acompanha já viram mais do que mil livros poderiam contar.

Carrego no peito o axé dos meus,

e nos ombros a poeira de quem andou antes de mim.

Porque ser de religião de matriz africana

é rezar com os pés no chão e os olhos no infinito.

É falar com os mortos para viver melhor com os vivos.

Peço ao povo da encruzilhada: me fortaleça.

Firmem minha fé quando a dúvida for sombra.

Orixás da minha coroa,sejam olhos para aquilo que ainda não vejo.

Recolham os ataques escondidos em sorrisos,limpem com arruda as palavras travestidas de cuidado,

e me cubram com a força ancestral

que não se explica se sente.

Eu sou de onde o vento gira e leva embora a mentira.

Sou da força que vem do chão,

do canto que cura,

do silêncio que escuta.

Sou de fé preta, de raiz funda.

E se incomoda,

é porque ainda há muita ignorância se fazendo de luz. Neide Ponzoni

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