sábado, 13 de janeiro de 2018


Essa solidão enorme que me habita agora no final de cada tarde , esse tempo derramado onde o segundo parece durar horas. Voam as lembranças tão vivazes de um passado \presente, um agora que só quer ser triste e oco.
 Essa angústia sussurrada pros amigos, o meu corpo a tremer sem agasalhos, a tristeza elegeu neste momento o meu olhar, que agora vive úmido.
E parece que jamais serei  a mesma e que nada mais terá sentido como antes, como é dura essa tristeza ao contrario  das lagrimas que são dinâmicas e fluidas.
Então tenho que deixar as coisas se renovem,  e que as perdas tenham mais de um sentido, que os vazios me ofereçam mais espaço, pra que a vida me compense com o impossível. O possível parece se distanciar e meus passos não o  alcança.
Queria   permitir que a alegria se aproximasse, e que me trouxesse  mais calor para os meus dias, afinal é verão...quando tudo me parece um desconsolo, é possível ainda assim, ser poesia.
Serei forte, sigo em frente, respiro fundo, e percebo a importância de se ter vazios, pra que eu possa ocupar os espaços  com novidades . Preciso renascer. Preciso renascer logo.
Bjos meus.
Neide Ponzoni
 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Os estagios da dor


Os estágios da dor...

Escrevo sobre tudo , mas hoje quero falar sobre estar doente. Ouvi durante os últimos anos “como assim tem câncer e não morre”... “nossa você tem câncer e ri, bebe e sai”... “é mentira ela não tem nada” .,” quem está doente não se comporta assim ...”

O pior e ouvir de quem você mais convive que “como assim ta de novo com câncer ... “Vai operar de novo “. “Você vive com dor que saco... “ “vê se opera no dia que não é do meu rodizio ... “ “não fala para ninguém que é doente imagina o que os outros vão pensar...”

E por ouvir tudo isso faço “quase” tudo sozinha . Dificilmente peço para alguém me acompanhar sei que estressante para todos.

Primeiro é verdade estou doente ha quase duas décadas... fiz tantas cirurgias  e terapias que sei de cor qualquer nome de antibiótico e medicamento.

Vivo dentro de hospitais conheço cada sintoma e cada reação do organismo. Falto algumas partes do corpo, mas que não fazem tanta falta assim... tenho cérebro, pulmão e coração...vi muitos morrerem  e sei o que pode acontecer ..

Passei por todos os estágios de uma doença grave . Não só uma vez mais diversas. E quero falar deles para que todos entendam como é difícil estar do lado de cá.

O primeiro estágio é a negação. “Não pode ser verdade, comigo, não. Deve haver um engano”, de novo não ...declaro todas as vezes que recebo direta ou indiretamente a notícia de apareceu mais um foco de  doença. A negação funciona como “um pára-choque  depois da  notícias inesperadas( ou já esperada) e chocantes,  eu me  recupero com o tempo”. Comumente,  minha negação é uma defesa temporária, logo substituída por uma aceitação parcial.

O segundo estágio é a raiva, a revolta de admitir que sou  “sorteada” com o mal que dói. Esse é o momento é “difícil”, intransigente e com pouca paciência para me submeter às terapias propostas viro um porco espinho.

O que estranho é que ninguém compreende. Se compreendessem a dimensão do sofrimento desse estágio e de como a dor e o medo me  tornam  irascível, mudariam a atitude em relação a mim, deveria ser um  processo de mão dupla, a mudança provocaria efeitos positivos tanto em mim  como para os que me cercam. Não acontece vira um território minado e eu me sinto culpada por estar doente .

O estágio seguinte é o da barganha. É fácil reconhecê-lo faça  uma analogia simples com o comportamento da criança que quer algo que é negado pelos pais. Primeiro me revolto, bato o pé e faço birra. Quando não consigo nada dessa forma, busco nova tática: trato de prometer ser boazinha para ser “recompensada”. Geralmente a barganha é feita silenciosamente com Deus para receber a graça pretendida, o milagre da cura. Que eu seja a primeira da fila ...Como pode eu ser boa como estar assim ...prometo mundos e fundos a todos os santos.

O quarto estágio vem a partir do insucesso da barganha e é a depressão. Existem nesse estágio dois tipos diferentes de depressão, já passei por eles,   merecem abordagens distintas. A primeira envolve as preocupações naturais de quem acha que vai deixar a vida. Começo organizar os armários , documentação e tudo.  Falo que gosto das pessoas mando recado etc...viro a  organizada. Me    preocupo com quem estou deixando, com os filhos,  com o tempo que resta e com o que pode fazer com ele. Choro muito.

Nesse momento as vezes me  arrependo do que deixei de fazer e viver . No segundo tipo de depressão, ao  invés de  ater as coisas que não fiz , levo em conta perdas iminentes. E meus filhos e se a cirurgia der errado , e se eu morrer ....

Neste momento só quero ser ouvida. Não  quero que  mostrem o lado azul da vida Apenas deixe  que eu  expresse meu pesar. Choro menos .

O quinto e último estágio é a aceitação, encontrado, afinal, tive tempo para superar os estágios anteriores. Nesse momento, descrevo como  um certo grau de “tranquila expectativa”, que não se deve confundir com um estágio de felicidade. É quase uma fuga de sentimentos, um estado de profundo cansaço e uma necessidade gradual de aumentar as horas de sono e de fugir. Combino com os médicos o que fazer e aceito.

Quando passo por esses estágios ai sim necessito de compreensão e apoio, pois é a hora de começar a lutar.
Neide Ponzoni

 

Você já reparou que ondas e lágrimas são feitas de água salgada? Sim, cada um de nós leva um mar dentro de si, entre tempestades e calmarias. Que eu consiga transformar tristeza em mar. E caso o caminho pareça longo (muitas vezes parece infinito) que eu tenha fôlego para continuar remando. O resto, o mar ensina.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Não quero compilar acontecimentos em palavras, relembrar cheiros e gostos e promover o download de cada sensação equivalente apenas para escrever.
Quero fazer uma pausa, às vezes, para escutar a vida além do olhar e ter no corpo o termômetro de todas as temperaturas possíveis. Saber que o calor dura algum tempo e que sensações frias virão e nada pode impedir.
Sentir as mudanças bruscas e perceber as sutis. E saber que tudo se transforma numa velocidade inédita sempre. As vezes a transformação é lenta quase imperceptível , outras vezes o baque é tão forte que quase derruba.
Acolher a calmaria como um afago da paz o que tanto quero e me permitir um recolhimento que não se pode publicar, pois é um descanso. Quero o silencio e poder ficar sem falar ....
Estar presente na rotina da vida real e arrumar as gavetas em vez de escrever poemas, mas escrever poemas enquanto arrumo as gavetas da alma. Viver . Sentir e querer ter o que posso ter .Bjos meus . Neide Ponzoni