Sobre Ipes .
É
inverno .
Minha
alma fria atravessa a neblina, empurrando meu corpo dolorido numa rua longa. Estranho como a temperatura
cai ao passar perto lado da represa.
Entro
no ônibus, gosto de olhar além da janela.
O interior do ônibus sempre é fixa a paisagem, pessoas cansadas como eu .
Daquela
primeira luz da manha, fixo meus olhos
nas minhas mãos que tremem. Odeio os tremores. Eu aperto minha mão uma tontura , aperto novamente e solto mão , os tremores
continuam. Paro quieta, não me mexo ,
meu corpo dói. Olho para as pessoas que entram no ônibus a cada ponto . Fico
imaginando que são...
Continuo
observando a falta de organização, há um excesso de cores e de formas pelo
mundo. E tudo vibra pulsátil, fremindo, mas naquele momento ao lado tudo parece
parado, assim como trafego na pista ao lado... olho e vejo pessoas nos carros
... quem são?
Então tenho vontade de abrir todas as janelas do ônibus e
gritar “ ei você pra onde vai? Já tomou café? Transou antes de sair ? Dou
risada da” bobajada” não abro a janela
e nem grito .
Eu
fico então pensando. Me disseram que penso demais... olho pela janela algumas
pessoas eu já reconheço , vejo uma mãe que leva o filho pela mão todas as amanhas sempre entram numa igreja ... um cara com uma
camiseta escrita “ eu sou o cara” uma jovem que usa roupas curtas e apesar do
frio que dói , la esta ela com seu micro vestido .... Eu sei encontro com eles
pela janela do ônibus toda dia. Rotina.
Ver
a rotina é muito chato , então eu levo meus olhos a passear. E como eles
gostam!
Eles têm fome de ver. Encantam-se com tudo... E meus
olhos encontram os ipes , eles que dão cores a toda aquela bagunça, todo aquele
caos periférico.
Pela
janela percebo sua cor num amontoado de
casas . São os pés de ipê coloridos misturam-se às paredes de concreto e as
paredes de concreto às ruazinhas de casas desbotadas que se desembocam na represa, e outra vez o
roxo e o rosa dos ipês e o marrom da terra e o vermelho do bloco não cimentado
passam depressa pela janela.
Lembro
que um escritor que adora Ipês , penso num verso ... será que alguém o
conhecia...
Os
primeiros raios de sol aparecem e lá estão arvores frondosas com seu rosa
mostrando para o amarelo do sol que
existem. ...
Pintaram
tudo de cinza , mas os ipês do inverno trazem o rosa para quebrar a rotina...
Bjos meus
Neide Ponzoni