sábado, 22 de novembro de 2025

 

Tarde da noite, você vem com palavras
Tão fora de hora, tão cheias de memórias
Quer abrir gavetas que eu já tranquei
Remexer saudades que eu nem toquei

Se eu disser que fiquei firme
Seria mentira, e você bem sabe
Mas o tempo moldou outros caminhos
Hoje, meus passos têm outros destinos

Você chegou tarde, é verdade
Meu presente não deixa espaço pro ontem
Você foi página bonita, mas o livro virou
Quer reencontrar quem eu era — mas esse alguém mudou

Digo que senti, doeu, sozinha.
Acredito que não cabe reconstruir
O que nunca existiu de verdade —
Foi ausência disfarçada de carinho,
Promessa sem raiz, sem abrigo.

Tem sono leve nessa casa
Corações pequenos em paz
E eu só desejo que encontre o que busca
Mas em outro olhar, em outro caSe eu disser que não senti

Estaria traindo o que vivi
Mas o querer não basta
Quando o agora fala mais alto que o passado

Não dá mais pra matar sua saudade
Meu hoje me ensina a não voltar
Você foi luz em um tempo distante
Mas a estrada seguiu, sem chance de voltar

Os meus dormem, e eu velo
Essa imagem não combina com o que você espera
Vai em paz, mas não insista
Alguns capítulos não pedem reescrita

Meio - fio .

 O meio-fio era meu pequeno mundo elevado,

uma linha de concreto onde eu aprendia

a arte do equilíbrio

ora com uma perna só,

ora com o coração inteiro.

Sentava ali, na borda entre o seguro e o desconhecido,

entre a casa que me guardava

e a rua que se abria em vastidão.

Olhava os pneus passarem tão perto,

tatuando no asfalto desenhos que só eu acreditava ver:

círculos de pressa, marcas de destino,

tamanhos que falavam de forças maiores que a minha.

Depois das chuvas, ficava espiando

o que a água trazia

folhas viajantes, pequenos segredos,

um mundo miúdo que se acumulava

nesse limite silencioso.

O meio-fio tinha outra cor,

nem calçada nem rua,

uma fronteira discreta

que me ensinou que a vida cabe nos intervalos:

no quase, no por pouco,

no passo que hesita antes de tocar o chão.

Ali, naquela risca de cimento,

aprendi que crescer talvez seja isso

olhar para fora, sem deixar de ter um lugar

onde sentar e respirar.

Um lugar firme, estreito,

mas meu.Neide Ponzoni

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Acidente

 A MORTE

(minha única preocupação sempre foi a prudência… e mesmo assim não adiantou)

Nunca gostei de ir ao mercado.

Sempre foi cheio demais, barulhento demais, gente demais.

E além disso… eu sempre fui do tipo prudente. Minha única preocupação na vida sempre foi prudência evitar riscos, confusões, acidentes.

Mas naquele dia, mesmo com aquele peso estranho no corpo, eu fui.

Quando estendi a mão para pegar a água de coco, uma voz masculina surgiu às minhas costas, baixa e muito perto:

— Estranho comprar água de coco… quando tem coco natural logo ali.

Virei devagar.

Um homem alto, me observava como se já me conhecesse.

— É mais fácil. Não preciso quebrar respondi, sem entender por que estava explicando algo tão banal a um estranho.

Segui para o corredor do sabão.

Mal toquei o sabão líquido, ele apareceu ao meu lado de novo.

— Por que não leva o em pó? Dura mais ele disse, sem me olhar nos olhos, apenas encarando o produto na minha mão.

— Porque eu gosto do líquido  respondi, seca.

Ele inclinou a cabeça, como se analisasse minha resposta.

A essa altura, meu coração já batia errado.

Fui para as laranjas Bahia. Ele chegou tão perto que pude ouvir sua respiração.

— Essas são a que sempre come … murmurou.

Meu estômago gelou.

— Você está me seguindo?  perguntei.

Ele sorriu, um sorriso pequeno demais, quase um reflexo.Não esqueça tudo sem lactose …. 

Não respondi 

Me afastei rápido, peguei o carrinho e fui direto ao caixa. A moça não levantou o rosto. Passou minhas compras como se estivesse sozinha no mundo. Nem quando falei “boa tarde” ela reagiu.

Peguei a sacola e saí, sentindo meu braço latejar.

E lá estava ele de novo, plantado na saída.

— Quer ajuda? perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Balancei a cabeça e apressei o passo.

Ele veio atrás.

— Moro ali também comentou, casual.

Meu estômago virou. Ferrou.

Quase passamos juntos pela catraca do condomínio. Minha biometria falhou nunca falhava.

A dele passou na hora.

O segurança não respondeu meu “boa tarde ”.

Tive a sensação de que ninguém me via.

Subi mancando, cada passo doendo.

O homem apareceu no corredor, pegou minha sacola sem pedir.

— Eu carrego  disse apenas.

Algo em mim ficou paralisado. Não consegui reagir. Minha perna queimava. Meu nariz sangrou.

Entrei em casa. Meu cachorro, veio correndo… mas ao chegar perto, ele parou, olhou para mim, e deitou no chão como se estivesse triste. Não pulou, não pediu carinho.

Aquilo me deu um arrepio.

Meu marido chegou pouco depois.

— Tô passando mal  sussurrei.

— Uhum murmurou ele, distraído, como se eu estivesse no outro cômodo. Pegou algo no quarto e saiu sem olhar pra mim.

A dor subiu para minha cabeça. Comecei a ficar tonta. Peguei a bolsa: precisava ir pra UPA.

Quando abri a porta, o homem estava lá. Como se nunca tivesse ido embora.

— Vai sair agora?  perguntou, como quem pergunta as horas.

Explodi:

— Por que você está me perseguindo? Você me conhece? O que você quer? Isso é o quê? Se você não parar, eu vou chamar alguém!

Ele levantou as mãos devagar.

— Calma. Está tudo bem. Eu só estou indo para a portaria.

Mas a voz dele não parecia tentar me acalmar… parecia me preparar.

Desci.

Na catraca, ele novamente, parado, me observando passar.

Fui até a portaria. O guarda estava agitado, nervoso, sem me olhar. Também não respondeu meu “boa tarde ”.

A avenida estava tomada de ambulâncias e bombeiros. Luzes piscando, gritos, correria.

Acidente, pensei. Grande.

Cheguei perto para atravessar e vi meu marido , meu filho  mudo e minha filha gritava ,não vá “ ela não pode ir “ ela era prudente “ “‘.,Ajoelhados no chão entre os bombeiros que falavam rápido com alguém.

Olhei para o lado.

E ali estava eu.

Meu corpo.

Quebrado

Ensanguentado.

Imóvel.

Meu coração parou dentro de mim o que quer que estivesse ali.

Por isso a caixa não me viu.

Por isso o porteiro não respondeu.

Por isso meu marido não ouviu minha voz.

Por isso…

Eu morri.

Um motoqueiro chorava de joelhos.

Meu nariz voltou a sangrar mas agora eu sabia: não era sangue. Era o fim.

O homem apareceu ao meu lado, silencioso.

— Agora entende — disse ele, olhando para o acidente. — Venha comigo … 

— Quem… quem é você? — minha voz mal saía.

Ele estendeu a mão.

Quando tocou a minha, seu rosto mudou — como se a pele se desfizesse, mostrando apenas sombra, calmaria e inevitável destino.

Tudo apagou.Neide Ponzoni 

domingo, 16 de novembro de 2025

Em busca da Terra do Nunca

 Talvez por causa da fase que estou passando, revisitar filmes antigos tem sido quase um mergulho em mim mesma; e embora eu jamais tenha gostado muito de Peter Pan sempre o associei a homens que se recusam a crescer dessa vez deixei minhas impressões sobre a infantilização masculina de lado e assisti . Talvez querendo mesmo fugir para outro lugar . Em Busca da Terra do Nunca (2005)!com outros olhos.

“Em Busca da Terra do Nunca” é um filme emocionante, que relata a história de todos nós, crianças que um dia crescem.

Barrie desejava que preservássemos a inocência que um dia carregamos como luz,

que olhássemos o mundo e seus pequenos objetos com a leveza de quem ainda pode imaginar,que não permitíssemos que as adversidades engolissem o que temos de mais íntimo.

No entanto, o maior valor de “Em Busca da Terra do Nunca” reside em algo ainda mais profundo: ele se ergue como a mais pura expressão da magia do cinema,

o fascínio silencioso capaz de nos tocar, transformar e nos fazer lembrar da parte de nós que ainda acredita mesmo quando o mundo insiste em nos fazer crescer.Neide Ponzoni

Aftersun

 Ontem eu assisti Aftersun foi como abrir um álbum de fotografias que alguém deixou esquecido numa gaveta imagens iluminadas pelo sol, mas atravessadas por algo que não se vê à primeira vista. O filme entra devagar, com a doçura das pequenas rotinas entre pai e filha, e aos poucos revela o peso silencioso que existe por trás de cada gesto, como se a câmera filmasse também aquilo que não foi dito.

Assistindo, a gente sente uma ternura imensa e, ao mesmo tempo, uma melancolia que cresce sem pedir licença. É a dor suave de perceber que certos momentos bonitos só se entendem muitos anos depois; que a memória às vezes nos protege, às vezes nos fere, e quase sempre nos devolve a pergunta: o que realmente aconteceu?

No fim, fica um aperto no peito não violento, mas daqueles que acompanham a lembrança de um amor frágil, incompleto, humano. Aftersun deixa a sensação de que estivemos diante de algo profundamente íntimo, uma despedida disfarçada de férias, um retrato de duas pessoas tentando se alcançar, mesmo quando alguma distância invisível as separa.

É um filme que não termina quando acaba. Ele continua dentro da gente, como uma luz que pulsa no escuro, lembrando que crescer também é tentar compreender aqueles que amamos tarde demais, cedo demais, do único jeito que podemos.

A cena da pista de dança em Aftersun é, talvez, o coração emocional do filme o momento em que tudo o que estava apenas sugerido finalmente se revela, não por palavras, mas por gestos, luz e música.

Ali, Sophie adulta tenta alcançar o pai que ela lembra, como se aquela pista fosse um espaço entre mundos: passado e presente, memória e verdade, amor e ausência. A música — pulsante, quase hipnótica — cria um contraste violento entre o que vemos e o que sentimos. É uma canção de festa, mas a atmosfera é de implosão emocional.

Calum dança sozinho, como se estivesse preso dentro de si, tentando manter uma energia que o corpo não sustenta mais. A luz estroboscópica congela pequenos fragmentos dele, como flashes de uma lembrança que Sophie tenta segurar, mas que sempre escapa. Cada estalo de luz é um pedaço de quem ele foi, um pedaço de quem ela tenta entender.

Sophie adulta entra na cena como se estivesse buscando o pai na multidão, tentando tocá-lo através das décadas, mas ele parece sempre distante não por falta de amor, mas por algo que ela nunca conseguiu ver totalmente quando criança.

É uma cena que explode aquilo que o filme inteiro sussurra: a impossibilidade de realmente compreender alguém que amamos, mesmo quando tentamos com todas as forças. O abraço que não chega. O grito que não sai. O encontro que nunca se completa.

No fim, a pista de dança se torna um espaço simbólico: o lugar onde a Sophie adulta finalmente encara o vazio deixado por esse pai, e onde o pai, na lembrança dela, parece desaparecer pela última vez não como rejeição, mas como despedida.

😢chorei muito .