O meio-fio era meu pequeno mundo elevado,
uma linha de concreto onde eu aprendia
a arte do equilíbrio
ora com uma perna só,
ora com o coração inteiro.
Sentava ali, na borda entre o seguro e o desconhecido,
entre a casa que me guardava
e a rua que se abria em vastidão.
Olhava os pneus passarem tão perto,
tatuando no asfalto desenhos que só eu acreditava ver:
círculos de pressa, marcas de destino,
tamanhos que falavam de forças maiores que a minha.
Depois das chuvas, ficava espiando
o que a água trazia
folhas viajantes, pequenos segredos,
um mundo miúdo que se acumulava
nesse limite silencioso.
O meio-fio tinha outra cor,
nem calçada nem rua,
uma fronteira discreta
que me ensinou que a vida cabe nos intervalos:
no quase, no por pouco,
no passo que hesita antes de tocar o chão.
Ali, naquela risca de cimento,
aprendi que crescer talvez seja isso
olhar para fora, sem deixar de ter um lugar
onde sentar e respirar.
Um lugar firme, estreito,
mas meu.Neide Ponzoni
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