sábado, 22 de novembro de 2025

Meio - fio .

 O meio-fio era meu pequeno mundo elevado,

uma linha de concreto onde eu aprendia

a arte do equilíbrio

ora com uma perna só,

ora com o coração inteiro.

Sentava ali, na borda entre o seguro e o desconhecido,

entre a casa que me guardava

e a rua que se abria em vastidão.

Olhava os pneus passarem tão perto,

tatuando no asfalto desenhos que só eu acreditava ver:

círculos de pressa, marcas de destino,

tamanhos que falavam de forças maiores que a minha.

Depois das chuvas, ficava espiando

o que a água trazia

folhas viajantes, pequenos segredos,

um mundo miúdo que se acumulava

nesse limite silencioso.

O meio-fio tinha outra cor,

nem calçada nem rua,

uma fronteira discreta

que me ensinou que a vida cabe nos intervalos:

no quase, no por pouco,

no passo que hesita antes de tocar o chão.

Ali, naquela risca de cimento,

aprendi que crescer talvez seja isso

olhar para fora, sem deixar de ter um lugar

onde sentar e respirar.

Um lugar firme, estreito,

mas meu.Neide Ponzoni

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