Assumir minha fé foi como abrir um portão antigo,de ferro batido e história esquecida.
Atrás dele, cantos que não sabia, cheiros de ervas que limpam a alma e
uma dança que gira o mundo no sentido certo.
Não entrei por acaso , nem por susto.
Entrei porque fui chamado e quando Exu chama,a alma reconhece o caminho antes dos pés.
Mas aqui fora…o preconceito se esconde, ofende rindo , se mascara de preocupação,de “cuidado com essas coisas”,
Ignoram que o tambor é coração batendo em terreiro,que o orixá não pede medo, mas respeito,que cada guia que me acompanha já viram mais do que mil livros poderiam contar.
Carrego no peito o axé dos meus,
e nos ombros a poeira de quem andou antes de mim.
Porque ser de religião de matriz africana
é rezar com os pés no chão e os olhos no infinito.
É falar com os mortos para viver melhor com os vivos.
Peço ao povo da encruzilhada: me fortaleça.
Firmem minha fé quando a dúvida for sombra.
Orixás da minha coroa,sejam olhos para aquilo que ainda não vejo.
Recolham os ataques escondidos em sorrisos,limpem com arruda as palavras travestidas de cuidado,
e me cubram com a força ancestral
que não se explica se sente.
Eu sou de onde o vento gira e leva embora a mentira.
Sou da força que vem do chão,
do canto que cura,
do silêncio que escuta.
Sou de fé preta, de raiz funda.
E se incomoda,
é porque ainda há muita ignorância se fazendo de luz. Neide Ponzoni
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