domingo, 16 de novembro de 2025

Aftersun

 Ontem eu assisti Aftersun foi como abrir um álbum de fotografias que alguém deixou esquecido numa gaveta imagens iluminadas pelo sol, mas atravessadas por algo que não se vê à primeira vista. O filme entra devagar, com a doçura das pequenas rotinas entre pai e filha, e aos poucos revela o peso silencioso que existe por trás de cada gesto, como se a câmera filmasse também aquilo que não foi dito.

Assistindo, a gente sente uma ternura imensa e, ao mesmo tempo, uma melancolia que cresce sem pedir licença. É a dor suave de perceber que certos momentos bonitos só se entendem muitos anos depois; que a memória às vezes nos protege, às vezes nos fere, e quase sempre nos devolve a pergunta: o que realmente aconteceu?

No fim, fica um aperto no peito não violento, mas daqueles que acompanham a lembrança de um amor frágil, incompleto, humano. Aftersun deixa a sensação de que estivemos diante de algo profundamente íntimo, uma despedida disfarçada de férias, um retrato de duas pessoas tentando se alcançar, mesmo quando alguma distância invisível as separa.

É um filme que não termina quando acaba. Ele continua dentro da gente, como uma luz que pulsa no escuro, lembrando que crescer também é tentar compreender aqueles que amamos tarde demais, cedo demais, do único jeito que podemos.

A cena da pista de dança em Aftersun é, talvez, o coração emocional do filme o momento em que tudo o que estava apenas sugerido finalmente se revela, não por palavras, mas por gestos, luz e música.

Ali, Sophie adulta tenta alcançar o pai que ela lembra, como se aquela pista fosse um espaço entre mundos: passado e presente, memória e verdade, amor e ausência. A música — pulsante, quase hipnótica — cria um contraste violento entre o que vemos e o que sentimos. É uma canção de festa, mas a atmosfera é de implosão emocional.

Calum dança sozinho, como se estivesse preso dentro de si, tentando manter uma energia que o corpo não sustenta mais. A luz estroboscópica congela pequenos fragmentos dele, como flashes de uma lembrança que Sophie tenta segurar, mas que sempre escapa. Cada estalo de luz é um pedaço de quem ele foi, um pedaço de quem ela tenta entender.

Sophie adulta entra na cena como se estivesse buscando o pai na multidão, tentando tocá-lo através das décadas, mas ele parece sempre distante não por falta de amor, mas por algo que ela nunca conseguiu ver totalmente quando criança.

É uma cena que explode aquilo que o filme inteiro sussurra: a impossibilidade de realmente compreender alguém que amamos, mesmo quando tentamos com todas as forças. O abraço que não chega. O grito que não sai. O encontro que nunca se completa.

No fim, a pista de dança se torna um espaço simbólico: o lugar onde a Sophie adulta finalmente encara o vazio deixado por esse pai, e onde o pai, na lembrança dela, parece desaparecer pela última vez não como rejeição, mas como despedida.

😢chorei muito .

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