Dar ou não dar foi a minha grande questão.
Minha adolescência foi no final da década de 80 e década de 90. Época de abertura política, caras pintadas, fé no socialismo......e muita, muita paquera e rock nacional.
Não “ficávamos” como hoje, paquerávamos. Algo entre liberalismo de hoje e conservadorismo dos anos 20.Tudo podia, mas o advento da AIDS trouxe medo.
Como eu fazia colegial ( hoje Ens. Médio) e Magistério (hoje não existe mais.) ao mesmo tempo, convivia com dois seletos grupos, os das moças que queriam ser professoras e dos anarquistas que não sabiam o que queriam...Era uma confusão , eu queria os dois ser anarquista e ser professora.
Naquela década as meninas não transavam , elas davam.....e eu menina independente morava sozinha em São Paulo, tinha trabalho, salário , e não dava.
Era muito conflitante ouvir algumas amigas contar de suas paixões tórridas e outras me aconselharem ser direita, mas eu era de esquerda, petista algo estava errado comigo, nem Freud explicava ou melhor, Freud dizia que para você se tornar mulher, isto é ter relação sexual, tem que matar o pai.... Ah isso tava difícil, o meu era imortal.
E foi assim por muitos anos, namorava na hora h, saia fora inventava uma desculpa e nada.
Deixava os paqueras na mão, literalmente, agora entendo o que é deixar na mão.
Tive muitos paqueras: poetas, comunista, filósofos, roqueiros, engenheiros, cultos, bobos , imaturos, apolíticos , ateus, evangélicos...... e lá vem história; uma grande paixão foi um chileno conhecedor de Neruda e Gabriel Garcia , foi ele que leu pra mim Amor no tempo do cólera , como esquecê-lo, apaixonei mas não dei.
Outro foi um administrador de empresa, assinante do Círculo do livro, me mandava lindos exemplares , Drummond, Pessoa, com poesia na primeira folha, ele era lindo moreno, apaixonei, mas não dei. Outro loiro, olhos verdes... ah meus 19 anos...... não dei. Outro cantor, tinha uma banda , me cantava em suas músicas , tenho uma na memória, não dei.
Acho que os deixava com dores nos rins, suando frio e com raiva, mas...
Sou uma mulher dominada pelas palavras, alguns paqueras sabendo disso liam , aprendiam , acho que os ajudei bastante de forma cultural....
Até que conheci um ser meio estranho; era meio tudo roqueiro, atleta , estudante, falava pouco mas tinha senso de humor .
Oh raiva por esse eu não me apaixonei , era algo esquisito, o conheci num carnaval, então pensando bem , logo passaria como dizia o samba do Chico “vai passar...” e nada O cara era CDF , ia pra casa e ficava estudando , sério algo errado no ar... Nem uma tentativa sexual, era gay ?????? Não, ele não era gay , mas não podia pegar DP.
Eu ansiava pelas férias...conversávamos muito,ás vezes era mais um monólogo, ele ouvia, todos meus sonhos conflitos, raiva , questões políticas, filosóficas , partidárias....ele ouvia , ria e falava sempre ahhhh Neide.
Claro tinha uns “rala e rola”.... e eu deixando ir...
Certa noite fomos ver Telma e Louise , saimos do cinema e eu falando sem parar , gosto de ver os filmes comentá-los , fico horas analisando , assisto mais de uma vez, e o cara mudo, só ouvia , até que parei e perguntei:
_ O que achou do filme ???
Ele olhou nos meus olhos e disse:
-AHHHH Neide ,elas são mulheres como você. Com o destino de suas vidas nas mãos.
AH... Sou movida por palavras e aquelas me abriram minhas pernas....oppssss quero dizer abriram meu coração !!!!!!!
Quem é o cara????? Todos os meus amigos sabem.
Bjos Meus.
Neide Ponzoni
Ahahahaha
ResponderExcluirTia, esse seu texto foi um verdadeiro deleite de lembranças, a causar em mim verdadeira nostalgia dos tempos em que eu era pequena e ficava do seu lado e das suas amigas para escutar, o que, eu mesma, não entendia! rs
Engraçado, como naquela época, nãi fazia sentido nada! E agora, uma breve leitura me remeteu ao passado, de forma não só a lembrar sua aventuras, mas, como também, poderar meus medos! Que, cópra nós, está enrraizado na educação que tivemos!
Sei de todos esses amores, desde o Chileno, até o loiro boinitão! Inclusive, como boa entendedora, sei bem quem é o cara! ahahaha
Adorei! Dei risada e me transportei, quer seja pra minha infância, que seja para as minhas próprias lembranças juvenis!
É isso aí, matar "o pai" somente com muito amor!
Parabéns! Tá ótimo!
Neide, seu texto tá lindo, sensível e realista, puro e de grande identificação. Como é bom fazer parte deste rol de amigos, que podem se deleitar com seus textos e por muitas vezes, se identificar com tantas coisas ditas. Parabéns, adoro vc..bjs July
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