O Perdão.
Ao abrir a porta ela reconheceu aqueles olhos azuis, eles não tinha o mesmo brilho assim como a pele também estava envelhecida, passaram-se 40 anos.
Ela sentiu-se mal estar, lembrava da agora com toda nitidez o dia do abandono.
Após dias discutindo e repetidas agressões, seu pai foi embora , sua mãe chorou até os olhos secarem , e adquiriram um brilho estranho , depois pegou os 5 filhos fez uma mala para cada um e os levou para porteira da fazenda
Ali sem entender o que acontecia ficaram parados, cada pessoa que parava ela os oferecia, contava o drama que estava vivendo e repetia que não tinha condições de mantê-los, seus olhos azuis estavam vermelhos,ela era alta , magra, seus cabelos eram loiros e tinha um cheiro de flores, doá-los era a saída que ela dera.
Dos seus irmãos e irmãs ela foi separada, cada um foi doado para pessoas diferentes, até o bebezinho fora doado assim como doa um gatinho.
Ela um casal pegou, o medo a fez vomitar enquanto caminhava. A mulher a pegou no colo e disse que cuidaria dela. Ao chegar à casa do casal percebeu que ali já tinha três crianças as quais, ela com apenas oito anos cuidaria. Aprendeu logo a cozinhar, a passar e lavar. Era uma adulta em miniatura.
A mulher nunca a tratava mal, mas também não lhe agradecia. Ela sentia saudades da mãe ,e não entedia porque ela tinha os abandonado, do pai ela nada sentia , mas principalmente da sua irmã gêmea ela sentia uma saudade doída, a noite ela sonhava com a fazenda e as duas correndo juntas.
Quando iam á cidade ela ficava procurando, observando na ânsia de ver algum dos seus irmãos.
Nunca reclamava, aprendeu a ser silenciosa falava pouco, aprendeu ler junto com as crianças as quais ela amava, era somente cinco anos mais velha mas parecia mãe deles, sabia que a leitura a ajudaria encontrar seus irmãos.
O tempo passou quando fez 18 anos teve liberação para ir a cidade sozinha seria uma oportunidade de obter notícias da mãe ou quem sabe sobre dos irmãos.
Passou o dia perguntando ninguém nem ouvira falar , outros diziam que seu pai tinha ido embora com uma cigana , e a mãe nunca mais foi vista , já passara 10 anos. Voltou para a casa triste chorou naquela noite, também sonhou com um bebe chorando e a chamando, acordou angustiada. Ela encontraria a mãe e os irmãos.
Seus passeios pela cidade eram como buscas ao passado. Depois de longa procura descobriu que sua irmã foi doada para alguém da capital, e que dois dos seus irmãos moravam na cidade vizinha. Em pouco tempo os reencontrou-os já eram homens com família e a recebeu muito bem , não queria saber da mãe nem do pai mas ajudaria encontrar as duas irmãs que faltavam.
Quando ela fez 22 anos casou e no dia do seu casamento sua irmã gêmea estava lá, elas eram muito parecidas ate a voz era igual, cabelos pretos olhos verdes , pele branca. Foram quatro anos de busca , mas encontrou era como se olhasse no espelho. Ainda faltava saber onde estava o bebê e sua mãe, o pai ela desistiu de encontrar soube que vivia com um bando de ciganos.
Com a nova vida de casada pouco tempo sobrava para pensar no passado, teve filhos muitos, sete filhos em menos de 20 anos de casada.
O marido era um homem severo às vezes grosseiro, parecia muitas vezes com a lembrança que tinha do seu pai, não demonstrava sentimentos , era frio, rude, como podia ela ter se encantado por ele, sempre que podia a humilhava , mas os filhos eram tudo que ela queria.
Trabalhava duro como costureira para ajudar a mantê-los, passava por momentos difíceis já que o marido trabalhava no campo e o que ganhava não dava para terem luxo, as crianças cresciam educadas e estudiosas , ela nunca entendeu porque a mãe foi tão fraca e os abandonou, aquilo ainda a incomodava muito, e sempre sonhava com o bebê chorando.
Até que aquele dia ao abrir a porta da casa se de parou com aquela mulher, ela era sua mãe. Depois de 40 anos lá estava.
Ela a encarou , estava fraca , seu corpo magro , seus cabelos ralos, bem vestida mas com simplicidade, parecia alguém que estava preste a se quebrar.
Ela lhe ofereceu café, ficaram ali mudas olhando pro nada sem saber o que falar, até que ela tomou coragem e perguntou –onde esteve neste quarenta anos?
Perdida respondeu a mulher. Sofri muito , nunca tive paz. Todos os dias sofri, não há um só dia que não lamente por ter sido tão fraca de ter abandonado vocês. Minha vida é feita de sombras. Não me casei novamente , não tive mais filhos, vivi sozinha. Fui para muito longe para esquecer a tristeza da traição do seu pai, mais não foi ele que me destruiu foi a fraqueza de não saber lutar. Isto me matou um pouco a cada dia, soube que você me procurava , como vou morrer estou aqui. A voz saia fraca , falhava, o tom era quase inaudível. Sem saber mais o que dizer sem forças pronunciou perdão. Seu corpo caiu no chão.
Ela apoiou o corpo da sua mãe no colo, e sentiu o cheiro de flores vindo dos seus ralos cabelos. Eu a procurei toda minha vida e a perdôo de todo meu coração. Você é minha mãe, eu a quero viva, quero saber como é ter uma mãe , senti sua falta.
Perdão, repetia a mulher. Veja aqui esta o endereço da sua irmã mais nova. Ela é feliz , eu a vi.
Eu a perdôo mãe, fica comigo. Nessa hora o corpo da mulher ficou leve. Ela sabia que era o adeus. Chorou como nunca, sua procura tinha terminado ali.
Bjos meus.
Neide Ponzoni
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