Os estágios da dor...
Escrevo sobre tudo , mas hoje quero falar sobre estar
doente. Ouvi durante os últimos anos “como assim tem câncer e não morre”... “nossa
você tem câncer e ri, bebe e sai”... “é mentira ela não tem nada” .,” quem está
doente não se comporta assim ...”
O pior e ouvir de quem você mais convive que “como assim
ta de novo com câncer ... “Vai operar de novo “. “Você vive com dor que saco...
“ “vê se opera no dia que não é do meu rodizio ... “ “não fala para ninguém que
é doente imagina o que os outros vão pensar...”
E por ouvir tudo isso faço “quase” tudo sozinha .
Dificilmente peço para alguém me acompanhar sei que estressante para todos.
Primeiro é verdade estou doente ha quase duas décadas...
fiz tantas cirurgias e terapias que sei
de cor qualquer nome de antibiótico e medicamento.
Vivo dentro de hospitais conheço cada sintoma e cada
reação do organismo. Falto algumas partes do corpo, mas que não fazem tanta
falta assim... tenho cérebro, pulmão e coração...vi muitos morrerem e sei o que pode acontecer ..
Passei por todos os estágios de uma doença grave . Não só
uma vez mais diversas. E quero falar deles para que todos entendam como é
difícil estar do lado de cá.
O primeiro estágio é a negação. “Não pode ser
verdade, comigo, não. Deve haver um engano”, de novo não ...declaro todas as
vezes que recebo direta ou indiretamente a notícia de apareceu mais um foco
de doença. A negação funciona como “um
pára-choque depois da notícias inesperadas( ou já esperada) e
chocantes, eu me recupero com o tempo”. Comumente, minha negação é uma defesa temporária, logo
substituída por uma aceitação parcial.
O segundo estágio é a raiva, a revolta de
admitir que sou “sorteada” com o mal que
dói. Esse é o momento é “difícil”, intransigente e com pouca paciência para me
submeter às terapias propostas viro um porco espinho.
O que estranho é que ninguém compreende. Se compreendessem
a dimensão do sofrimento desse estágio e de como a dor e o medo me tornam
irascível, mudariam a atitude em relação a mim, deveria ser um processo de mão dupla, a mudança provocaria
efeitos positivos tanto em mim como para
os que me cercam. Não acontece vira um território minado e eu me sinto culpada
por estar doente .
O estágio seguinte é o da barganha. É fácil
reconhecê-lo faça uma analogia simples
com o comportamento da criança que quer algo que é negado pelos pais. Primeiro
me revolto, bato o pé e faço birra. Quando não consigo nada dessa forma, busco
nova tática: trato de prometer ser boazinha para ser “recompensada”. Geralmente
a barganha é feita silenciosamente com Deus para receber a graça pretendida, o
milagre da cura. Que eu seja a primeira da fila ...Como pode eu ser boa como
estar assim ...prometo mundos e fundos a todos os santos.
O quarto estágio vem a partir do insucesso da barganha e é
a depressão.
Existem nesse estágio dois tipos diferentes de depressão, já passei por
eles, merecem abordagens distintas. A primeira
envolve as preocupações naturais de quem acha que vai deixar a vida. Começo
organizar os armários , documentação e tudo. Falo que gosto das pessoas mando recado
etc...viro a organizada. Me preocupo com quem estou deixando, com os
filhos, com o tempo que resta e com o
que pode fazer com ele. Choro muito.
Nesse momento as vezes me
arrependo do que deixei de fazer e viver . No segundo tipo de depressão,
ao invés de ater as coisas que não fiz , levo em conta
perdas iminentes. E meus filhos e se a cirurgia der errado , e se eu morrer
....
Neste momento só quero ser ouvida. Não quero que mostrem o lado azul da vida Apenas deixe que eu
expresse meu pesar. Choro menos .
O quinto e último estágio é a aceitação,
encontrado, afinal, tive tempo para superar os estágios anteriores. Nesse
momento, descrevo como um certo grau de
“tranquila expectativa”, que não se deve confundir com um estágio de
felicidade. É quase uma fuga de sentimentos, um estado de profundo cansaço e
uma necessidade gradual de aumentar as horas de sono e de fugir. Combino com os
médicos o que fazer e aceito.
Quando passo por esses estágios ai sim necessito de
compreensão e apoio, pois é a hora de começar a lutar.
Neide Ponzoni
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