sexta-feira, 18 de julho de 2014


Sobre Ipes .

                É inverno .

                Minha alma fria atravessa a neblina, empurrando meu corpo dolorido  numa rua longa. Estranho como a temperatura cai ao passar perto lado da represa.

                Entro no ônibus, gosto de olhar além da janela.  O interior do ônibus sempre é  fixa a paisagem, pessoas cansadas como eu .

                Daquela primeira  luz da manha, fixo meus olhos nas minhas mãos que tremem. Odeio os tremores. Eu aperto  minha mão uma  tontura , aperto novamente e solto mão , os tremores continuam.  Paro quieta, não me mexo , meu corpo dói. Olho para as pessoas que entram no ônibus a cada ponto . Fico imaginando que são...  

                Continuo observando a falta de organização, há um excesso de cores e de formas pelo mundo. E tudo vibra pulsátil, fremindo, mas naquele momento ao lado tudo parece parado, assim como trafego na pista ao lado... olho e vejo pessoas nos carros ... quem são?

Então tenho vontade de abrir todas as janelas do ônibus e gritar “ ei você pra onde vai? Já tomou café? Transou antes de sair ? Dou risada da” bobajada”   não abro a janela e nem grito .

                Eu fico então pensando. Me disseram que penso demais... olho pela janela algumas pessoas eu já reconheço , vejo uma mãe que leva o filho pela mão todas as amanhas  sempre entram numa igreja ... um cara com uma camiseta escrita “ eu sou o cara” uma jovem que usa roupas curtas e apesar do frio que dói , la esta ela com seu micro vestido .... Eu sei encontro com eles pela janela do ônibus toda dia. Rotina.

                Ver a rotina é muito chato , então eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam!

Eles têm fome de ver. Encantam-se com tudo... E meus olhos encontram os ipes , eles que dão cores a toda aquela bagunça, todo aquele caos  periférico.

                Pela janela percebo sua  cor num amontoado de casas . São os pés de ipê coloridos misturam-se às paredes de concreto e as paredes de concreto às ruazinhas de casas desbotadas  que se desembocam na represa, e outra vez o roxo e o rosa dos ipês e o marrom da terra e o vermelho do bloco não cimentado passam depressa pela janela.

                Lembro que um escritor que adora Ipês , penso num verso ... será que alguém o conhecia...

                Os primeiros raios de sol aparecem e lá estão arvores frondosas  com seu rosa  mostrando para o  amarelo do sol  que existem. ...

                Pintaram tudo de cinza , mas os ipês do inverno trazem  o rosa para quebrar a rotina...

Bjos meus

Neide Ponzoni

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