quinta-feira, 17 de julho de 2014


Desejos impossíveis.

Tenho uma amiga que desejou  o amigo do marido.

 Um dia começou a pensar nele antes de dormir. Pouco depois, percebeu que não via a hora de encontrá-lo. Não que o cara fosse uma beldade, ela me disse. Era apenas um homem comum que tomava cerveja sem culpa diferente do marido malhado que ela tinha em casa .

 De tanto desejar o cara , ela começou a imaginar que ele também a queria. A facilidade virtual fez desse desejo um encontro diário . De minuto a minuto mensagens e bobagens eram trocadas , risos eram sentidos ... e textos apagados. E muita fantasia ali enroscada.

Ela achou então que o desejo pudesse se consumir, mas, como não era personagem do Nelson Rodrigues, nem a vida dela uma tragédia suburbana, num dado momento o surto passou, antes que ela tivesse tempo de fazer qualquer loucura. De alguma maneira, percebeu que, em vez paixão, o que estava sentindo era puro assanhamento - explicável, em boa medida, pelos problemas dela com o marido. Quando ela percebeu  o amigo do marido voltou a ser apenas um ícone no facebook. 

Por trás dessa história inofensiva existe algo que eu chamo de “desejos impossíveis”. O alvo desses sentimentos insolúveis pode ser qualquer pessoa, mas a situação é sempre a mesma: uma fantasia amorosa invade a nossa consciência e ocupa o espaço da vida real. Em vez de mandá-la para o ralo dos devaneios inconfessáveis, nós abraçamos a aberração. Nós queremos tudo, o tempo inteiro. Afeto, sexo, admiração, objetos. É um milagre de sanidade que a máquina de querer que somos nós consiga estabelecer com o mundo – e com outras pessoas transbordando de vontades – alguma relação civilizada. Na maior parte do tempo, mantemos sob controle o aparato desenfreado de querer. Aplicamos sobre ele o duro princípio da realidade.

Pois eu acho que os limites existem. Amigo do marido não pode. Nem tudo que desejamos é legítimo, afinal. Nem tudo pode. Um dia temos de aprender a dizer não para nós mesmos e olhar os erros de frente. Aprender com as decepções. Em vez de ilusão, realidade. Em vez de devaneio, mundo real. Os amores e desejos  impossíveis resultam em boas histórias do Nelson Rodrigues – mas são histórias que ninguém quer levar na própria biografia. e tenho certeza que essa minha amiga pode ate sentir desejo por outro novamente mas não será por amigo de marido.  

Bjos meus .

Neide Ponzoni

 

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