segunda-feira, 20 de maio de 2013

Odeio Chuva...

Cheguei no ponto de ônibus meio esbaforida, passando as mãos pelo cabelo para ajeitar e secando a mochila com a manga da blusa. Troquei um olhar com o rapaz e acenamos em um cumprimento seco, que a situação de ambos estarem ilhados em um ponto de ônibus exigia. Embora intensa, a chuva caía estável. Permanecia constante e reta, sem vento nenhum. E um frio doía , meu tênis enxergado ... Ótimo, pensei sarcástica. Combinava perfeitamente com o meu tédio, naquele momento. Não estava interessada no livro dentro da bolsa, muito menos nas músicas no celular . O pior de tudo é que esse silêncio exterior e o ritmo cadenciado da chuva deixavam meus pensamentos em polvorosa, doidos para serem ouvidos. Vontade falar tudo o que pensava em relação ao dia vivido. Palavrões ressoavam em meu cérebro . Olhei novamente para o rapaz . Ele também parecia angustiado. Será que estava na mesma posição que eu??? Cheio de duvidas em relação ao que é viver. Será que ele tinha uma família e estava incerto de como leva-la adiante?? Olhei pra sua mão, não tinha aliança . É talvez ele fosse feliz e estivesse chateado por causada demora do ônibus ou por causa dos pés molhados. Fiquei juntando os riachos de água que escorriam pelo chão com a ponta do tênis, até que a voz do rapaz dispersou os pensamentos. _Tem horas? Pedi um momento, pois não costumo usar relógio. Fui olhar no celular que estava dentro da bolsa. _Sete e quinze. _ Obrigada . Que chuva né ! _ Forte , odeio chuva...faz tempo que ta aqui ? Viu se passou algum Vila Independência? _ Faz e tempo e não passou . Estou esperando.... __Ahhh tomara que venha logo. Realmente, meu ônibus estava atrasado. Mais quatro ônibus passaram, e nenhum deles era o meu. Talvez houvesse congestionamento no centro, por conta da chuva repentina. As pessoas ficam desesperadas quando chove e parece que a afobação pipoca em forma de carros. Outro ônibus . Achei irônico que até ônibus para outra cidade passasse em uma frequência maior do que o meu, que me levaria apenas até o outro bairro. Um carro passou correndo e, quando viu a poça d’água em frente ao ponto, desviou para passar sobre ela propositalmente, molhando a mim e ao meu companheiro de naufrágio. Ele xingou bastante. Eu senti um desânimo enorme e quis ter uma bazuca à mão. Ri do meu exagero, mas considerando que se as armas fossem de fácil acesso a qualquer um, pequenas crises de ira seriam a maior causa de homicídios. Com ou sem arrependimento depois. Talvez não precisaria ir tão longe. Quantas vezes eu cheguei a odiar uma pessoa sem motivo algum, sem mesmo conhecê-la direito e depois de alguns anos senti um remorso imenso por ter direcionado algum tipo de sentimento negativo a alguém que nunca tinha me feito mal. Pode soar novamente exagerado, mas já cheguei a pensar em pedir desculpas a essas pessoas. Imagine a cena, que ridícula: “Com licença. Você não me conhece e nunca me fez nada, mas eu te odiava muito e me arrependo demais desse sentimento. Poderia me desculpar e sermos grandes amigos a partir de agora?” Aí sim a pessoa teria mesmo um motivo para me mandar à puta que pariu. Além do mais, provavelmente o alvo do meu extinto ódio nunca imaginaria que em algum momento eu desejei o seu atropelamento, até o momento em que eu lhe contasse. Portanto além de ridículo, pedir desculpas seria burrice. Porém, mesmo convincentes, tais argumentos não diminuíram o meu remorso. Cada um carrega a culpa que merece, por mais óbvio que isso possa parecer.Xingo depois me arrependo . Mais um ônibus passa. Impressionante. Vinte para as oito da noite e eu aqui, a chuva aqui, o rapaz aqui. Qual seria seu nome? O pior é pensar que se eu pudesse voltar no tempo, não faria diferente. Pois voltando no tempo eu não teria a mesma percepção da situação, que tenho hoje. Talvez a minha única possibilidade seria não me recolher ao meu canto confortável, quando as oportunidades aparecessem. Me senti confortada ao tomar essa decisão, certa de que tivera uma epifania e seria uma pessoa melhor a partir dali. Seria uma mãe melhor, uma esposa mais dedicada . Deixaria de lado toda a minha frustação com o trabalho e ..... Estava ali fazendo promessas de melhoria e a chuva continuava constante, impassível, impávida. E o meu ônibus apontou na esquina. Demos sinal. Entramos e sentei no canto . O rapaz sentou ao meu lado. Tirou o boné. Ele era muito mais jovem do eu imaginei. Olhei e encostei a cabeça no vidro . Queria muito conversar, mas para manter minhas promessas de minutos atrás era melhor não... estava muito sensível...acabaria falando e falando . . Fiquei pensando como sou composta por multidões de eus. Eus, para as várias pessoas que fazem parte dele. Inúmeros mundos. Milhares de números. Os dias e as horas são cada vez mais breves. Neste, o tempo é um senhor malévolo poderia ali em algum minutos conhecer alguém especial ou não. Ele retirou um livro da mochila, olhei a capa não era tão ruim assim o autor. Fingi dormi. Perdida em pensamentos bons e maus percebi quando o rapaz desceu. Olhou pra mim de forma interrogativa. Senti um remorso grande dentro de mim . Dobrei mais esse remorso e guardei junto aos outros. Espalhei umas bolinhas de naftalina, para que não mofassem com toda umidade da minha chuva eterna. Respirei fundo e reclamei baixinho odeio chuva. Bjos meus . Neide Ponzoni


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