Vida de trombadinha
Já fui uma trombadinha. Não se assuste não passei pela Febem , não roubei nada que é seu, nem prejudiquei ninguém claro não intencionalmente. Fui pega duas vezes, apanhei como quem merece.
A primeira vez; fui pega .
Junto com umas amigas fomos colher mexericas, lindas pokan. Minha versão : éramos meninas com umas sacolas pequeninas, estavamos cheias de desejos e disposição , as mexericas estavam lá , maduras , num local de difícil acesso , com arames farpados por todos os lados, claro para as mexericas não fugirem.
Entramos, apesar da nossa magreza, deixamos um pouco de fios de cabelos nos arames. Aproveitamos por muito tempo, as mexericas estavam tão doces e enchemos as sacolas e saímos calmamente jogando cascas umas nas outras.
Descíamos o morro, tranqüilas quando ao nosso lado parou um carro com o nome da fazenda. Fomos levadas até a sede.
Versão do dono da fazenda : meninas mal educadas, sem pais , invadiram a fazenda e estragaram toda a plantação e roubaram muitas mexericas. Puro exagero, mas o medo era tanto e sabíamos que algo não muito bom iria acontecer, então concordávamos com tudo, balançávamos as cabeças. Uma das meninas já começava chorar , e o dono da fazenda falava , falava. Até que parou e disse que ou nos levaria para cadeia, ou para casa. Neste momentoeu pensava o que seria pior?
As meninas choravam, uma culpava a outra, eu como mentora da ação, fiquei muda tentando sair daquela situação. Então gritei :
__ Devolveremos. Claro, aquilo doía no meu coração, devolver as mexericas fruto de muitos cabelos nos arames.
_Devolver ????? Gritou o fazendeiro. Vocês roubaram e agora querem devolver?
__Sim, respondi. Devolveremos tudo, enfiei o dedo na garganta e foi vômito para tudo que era lado.
Todos ficaram me olhando. O fazendeiro então atônito, com nojo e revoltado, mandou o um dos funcionários nos levar pra casa e contar tudo a nossos pais. Apanhei muito, tinha ainda conseguido levar duas mexericas no bolso da blusa, que infelizmente amassaram com as chineladas.
Outra vez fui pegar e com a intenção de não devolver , na biblioteca da escola um livro do Jose Lins do Rego, ah aquele eu queria tanto.
Dona Adélia bibliotecária já tinha cismado comigo, eu era assídua freqüentadora. Entrava, olhava e pegava o mesmo livro, ficava com ele na mão lia umas partes, relia e o desejava.
Não a historia em si , que até gostei, mas tinha uma dedicatória na contra- capa que estava escrito "Para pessoa que eu amo e que ama ler ." Aquilo era pra mim....e lembro da capa um menino em cima de burrinho.
Planejei detalhadamente, todo dia entrava lá segurava o livro e .... dona Adélia frustrava minhas tentativas, não tinha jeito. Coloquei na mochila ela pediu para eu marcar o que estava levando. Tudo tentei e não levei.
Li muito livros, mas a vontade de ter aquele livro não passou.
Quando estava no final do oitavo ano decidi vir para São Paulo, mas antes fui me despedir das prateiras de livros lidos por poucos e também de dona Adélia. Contei minha decisão de partir. Abracei dona Adélia com quem eu convivi naqueles anos. Ela me entregou o livro. Perguntei se tinha certeza, pois não voltaria mais. Ela respondeu:
__Um dia você devolve ...vocês sempre voltam.
Nunca mais entreguei , não voltei . Sonho com a biblioteca lá conheci muito do gosto hoje.
E tive duas tentativas de trombadinha frustradas.
O tempo passa, mas o estigma fica, estudei, me tornei professora em São Paulo. Gosto de São Paulo, mas existe algo que me incomoda nessa cidade é o frio, minhas orelhas doem , então uso touca, meus cabelos são curtos.
Certo dia, fazia muito frio, eu estava de ônibus próximo a escola que trabalhava, de touca, mochila e lia distraída . Neste meio tempo o ônibus foi parado numa blitz .
A policial mandou todos descerem. Começou a dar geral e vasculhar as bolsas. Ela me olhou como se eu fosse uma bandida, tirei a touca, para me tornar mais apresentável.Não adiantou a policial me encostou no muro, e revirou minha mochila . Tentei explicar que eu era professora, mas não deu tempo. Vi tudo ser tirado da mochila. Nessa epoca por causa de um problema na tiróide tinha que usar um sal espcial. Sempre carregava num potinho.Quando a policial viu aquilo perguntou o que , pensei meu Deus, fudeu. Sal , respondi, ela colocou na boca .
__ Isso não tem gosto de sal!
__ Mas é sal.
Ela me olhava estranhamente e chamou o outro policial.
Depois de verificar tudo e discutirem o que era aquilo e me olharem como uma meliante acharam meu holerite no bolso da mochila. Todos do ônibus me olhavam. Entâo ao verem que eu nao era uma ameaça , a policial pediu desculpas e disse ter me confundido com um trombadinha. O pior é que desta vez eu era inocente. Nada de drama. Só risada, pois fui piada entre os alunos por alguns dias. AHHH essa vida de trombadinha....
Neide Ponzoni
Bjos meus.
Sempre digo, a Neide trombadinha é f...
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